Quando o vestir deixa de servir e passa a significar
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Visitei a exposição Arte & Moda, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, e encontrei um deslocamento que não se limita ao campo visual. O percurso propõe uma revisão sobre o que entendemos por vestir, por imagem e por presença.
A própria fundação carrega uma história que amplia essa leitura. Criada a partir do legado de Calouste Gulbenkian, a instituição nasce de um gesto de organização de mundo por meio da arte. Sua coleção reúne objetos de diferentes períodos e geografias, atravessando civilizações e estabelecendo relações entre cultura, poder e representação. Não se trata apenas de acumular peças, mas de construir um sistema de pensamento visual.
Esse princípio se reflete na exposição. Logo no início, a relação entre vestuário e identidade surge como eixo. Em diferentes períodos, o vestir aparece como meio de comunicação. Não apenas como proteção ou função, mas como inscrição social, política e simbólica. Em civilizações antigas, materiais carregavam valor que ultrapassava a matéria. Ouro, prata e tecidos indicavam posição, origem e acesso.
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Ao longo do trajeto, esse entendimento se articula com a própria lógica de coleção de Gulbenkian. Há um interesse contínuo por objetos que não apenas representam uma época, mas que revelam como cada sociedade se organiza visualmente. Artefatos do Mediterrâneo, referências do Egito e expressões de outras culturas mostram que a roupa sempre operou como linguagem. Deuses, figuras mitológicas e estruturas de poder eram reconhecidos também pelos elementos que os envolviam.
Em outro momento, a exposição conduz ao século XVIII europeu. Nesse período, a distinção entre masculino e feminino não operava como hoje. Tecidos, bordados e ornamentos circulavam entre ambos. A construção da imagem social passava pela incorporação de códigos ligados à corte. Vestir era se alinhar a um ideal coletivo. A diferenciação rígida entre gêneros ainda não havia sido consolidada.
Essa leitura dialoga diretamente com o modo como Gulbenkian construiu sua própria imagem. No início do século XX, entre Paris e Londres, suas escolhas de vestuário seguiam códigos precisos. Sua relação com a alfaiataria inglesa e com a organização visual do corpo indicava pertencimento a um determinado campo social. O vestir, nesse caso, também operava como linguagem de posição.
Ao avançar, encontro outra inflexão no percurso. O dandismo surge como uma formulação em que o vestir deixa de ser apenas prática social e passa a operar como posicionamento. Consolidado em Londres, sob influência de Beau Brummell, esse movimento reorganiza a relação entre aparência e significado. A contenção substitui o excesso. O corte passa a comunicar precisão. O traje deixa de exibir ornamento e passa a estruturar presença. Nesse contexto, o vestuário masculino abandona códigos anteriores e estabelece outra lógica de distinção, baseada em rigor e atitude.
O percurso avança e encontra a alta-costura. Nesse ponto, a relação entre corpo e vestuário sofre nova inflexão. Peças deixam de acompanhar a anatomia como extensão funcional. Elas passam a existir como estruturas autônomas. O corpo não desaparece, mas deixa de ser medida única. Se torna suporte para uma ideia.
Diante de criações de Guo Pei, essa ruptura se torna evidente. O vestuário assume dimensão arquitetônica. Bordados, volumes e construções não respondem apenas à estética. Eles organizam narrativas. Em uma das obras apresentadas, o uso do ouro não atua como ornamento. Ele opera como signo. Remete a poder, espiritualidade e permanência. O corpo, nesse caso, se transforma em superfície de inscrição simbólica.
Esse deslocamento produz uma inflexão importante. A moda, quando inserida nesse campo, deixa de operar sob lógica de consumo imediato. Ela passa a se relacionar com tempo, memória e elaboração. Se aproxima de um território em que o valor não está na circulação, mas na permanência de sentido.
Também se evidencia um diálogo contínuo entre épocas. Obras do acervo do museu são colocadas ao lado de criações contemporâneas. Não há hierarquia. Há correspondência. Um gesto antigo encontra uma forma atual. Um material retorna sob outra construção. O que se vê é continuidade.
Saí da exposição com a percepção de que o vestir não pode ser reduzido à função. Ele participa de uma estrutura mais ampla, que envolve linguagem, pertencimento e construção de identidade. Ao alterar o contexto, se altera também o modo de ver.
A experiência não termina na visita. Ela se prolonga na forma como observo escolhas cotidianas. Cada tecido, cada corte, cada composição passa a carregar uma pergunta. O que está sendo comunicado aqui? E, talvez, seja nesse ponto que a exposição se sustenta. Não como apresentação de peças, mas como proposição de leitura. Um convite para compreender que, ao longo da história, o vestir sempre falou. Mesmo quando não percebíamos.
