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O risco e o prazer de brincar com as palavras

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Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

Tenho notado que quem leva as palavras muito a sério acaba, inevitavelmente, brincando com elas. Quem vive das palavras, ou ao menos dedica alguns minutos diários à sua contemplação, não consegue evitar o impulso de jogar com elas. Desmontá-las, remontá-las, trocar letras, inverter sílabas, numa brincadeira que pode levar a resultados inesperados – embora nem sempre apreciados, como veremos.

Mesmo os escribas mais sóbrios e realistas, pouco inclinados à prosa ornamental, correm o risco de ceder a essa tentação. O mesmo se pode dizer dos pragmáticos, como os publicitários, que, por dever de profissão, buscam nas palavras formas de seduzir as pessoas a adquirir seus produtos. Por mentes assim foram criados os nomes-fantasia “Supermercláudio”, “Scarpe Diem”, para uma loja de calçados, “Al Freddo”, para uma sorveteria, “Marlon Branding”, para uma agência de marketing, “Senhor dos Pastéis” e “Engenheiros do Açaí” para duas lanchonetes. A instabilidade da língua é um manancial de criatividade quando se trata de auferir lucros.

Com o tempo, as invenções se acumulam e vão sendo arquivadas na mente do escritor. O que fazer com elas? Seria o caso de deixá-las em suas gavetas e jogar a chave fora? Não é preciso tanto. Elas podem ser usadas aqui e ali, desde que com moderação. Um dia, encontram lugar num poema; no outro, viram piada na boca de um personagem de romance. Vão sendo semeadas sobre textos diversos à espera de que o leitor se encante com a inventividade do autor. Mas podem também ser aproveitadas todas de uma vez, num conto ou crônica feito só delas.

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E há ainda o uso social que alguns fazem dessas brincadeiras, caso em que elas tendem a ser não muito bem-vindas. Nas reuniões com amigos e parentes, assim como no aconchego do lar, costumam ser recebidas com desconfiança e impaciência, quando não com hostilidade aberta. Nessas situações, a sanha que seria dirigida ao criador de “Marlon Branding”, caso ele estivesse por perto e caso sua obra já não estivesse institucionalizada, é derramada sobre o pobre trocadilhista ali presente, na esperança de que ele desista de novas tentativas. Na família, há sempre alguém pronto a desferir um riso debiloide contra o perpetrador do “trocadilho infame”, podendo fazer com que ele nunca mais abra a boca ou dobre a aposta, provocando um desastre completo. Em momentos românticos tampouco é aconselhável empregá-los. Os trocadilhos não apenas podem destruir famílias como abortar o desejo de constituí-las.

Mesmo os jogos linguísticos mais refinados correm o risco de serem tachados de “infames”, e não somente por gente insensível à magia das palavras. Para Nabokov, Finnegans Wake não passava de uma “charada interminável” e algumas partes de Ulisses, “experimentalismos gratuitos”.

Considero isso tremendamente injusto. Assim como há trocadilhos tocados pela ignomínia, há manobras verbais em que significado e significante brilham juntos. Tanto uns quanto outras são formas elementares de amor às palavras. Revelam a instabilidade permanente do seu sentido, a eterna margem que elas deixam para o lúdico. É algo que todo falante da língua portuguesa conhece bem, do contrário não teríamos inventado o “aborrescente”, o “patriotário”, o “precariado” e o “paitrocínio”.

Às vezes é um ouvido descuidado que, sem querer, produz novos sentidos. Aconteceu comigo, assistindo a um filme em que o personagem disse, “Temos que reconduzi-lo ao juízo”, e eu, crítico da lucidez desencantada, entendi, “Devemos reduzi-lo ao juízo”. Muito melhor. É como esfregar a superfície da palavra para que dela escape um significado adormecido.

Só desse modo somos capazes de perceber que, assim como o demo está no meio do redemoinho, existe a cura no fim da loucura, e que basta mexer um A no verbo “contar” para que a gente resolva se conter e não contar mais nada. E que se as palavras nos ferem é porque há um chicoteador por trás de todo chacoteador, e um caçador à espreita em cada caçoador. E que é preciso atenção à tensão que está no ar, pois há supremacistas e supermachistas por toda parte neste mundo governado pelo Rei Mídias, que com um toque transforma tudo em mentira.

E assim só nos resta seguir, morrendo e aprendendo e lutando com palavras, pois lutar com palavras é a luta mais sã, pulsante em nós desde a infância, sobretudo na infância, quando ainda não há diferença apreciável entre erro e acerto, e pode-se trocar uma sílaba ou esconder uma letra como se prega uma peça, causando maravilhas em quem esperava pelo normal.


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