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O que ninguém conta às miúdas de 20 anos

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12.08.2026

Se há postura que não combina comigo é a paternalista. Ou, atendendo ao género, a maternalista. Ainda assim, a partir de certa idade, qualquer pessoa corre o risco de começar a distribuir conselhos que ninguém pediu. Olhamos para nós, para o nosso passado, para o de quem nos rodeia, reconhecemos precipícios e nasce-nos imediatamente uma advertência na boca. Do outro lado, quase sempre, encontra-se alguém preparado para a ignorar. Há lições que só se deixam compreender depois de terem doído.

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Mas os números ajudam a explicar esta minha crónica de hoje. Entre abril e junho deste ano, foram participadas à GNR e à PSP 7871 ocorrências de violência doméstica em Portugal. Sete pessoas foram mortas nesse contexto, entre elas três mulheres e três crianças. Na Rede Nacional de Apoio a Vítimas de Violência Doméstica foram acolhidas 1390 pessoas e mais de seis mil beneficiaram de proteção por teleassistência. Não são apenas estatísticas, mas a medida de relações que, em demasiados casos, começaram muito antes do primeiro episódio reconhecido como violência.

E talvez seja precisamente aí que esteja uma grande parte do problema. É também por isso que esta crónica se dirige às mulheres de vinte anos, numa altura em que os discursos machistas parecem encontrar, em Portugal, um mercado cada vez mais disponível, mais jovem, sobretudo nas redes sociais, onde velhas ideias regressam com nova embalagem e uma preocupante aparência de normalidade.

Esta crónica, embora escrita em período de férias, começou numa sala de aula. Os meus ouvidos, excessivamente treinados por muitos anos de rádio, captam o mais pequeno ruído, uma conversa ao fundo, uma hesitação no meio de uma frase. Talvez seja defeito profissional, mas reconheço muitas vezes o medo, a ansiedade, a alegria ou o desamparo apenas pela voz. O contacto com os/as estudantes ultrapassa, por vezes, as paredes da academia e prolonga-se nas redes sociais. Aí surgem outras versões de cada pessoa, mais luminosas, encenadas ou vulneráveis, que podem aproximar-se da realidade ou nada ter que ver com ela. É nesse território que regresso aos meus vinte e poucos anos e penso naquilo que........

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