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Os valores cristãos europeus à espera de uma ressurreição

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Os artigos da equipa do PÚBLICO Brasil são escritos na variante da língua portuguesa usada no Brasil.Acesso gratuito: descarregue a aplicação PÚBLICO Brasil em Android ou iOS.

Neste feriado de Semana Santa, vim com uns amigos para o interior de São Paulo. Churrasco, rio, piscina, caipirinha, conversas ao léu e chuva na Sexta-Feira Santa. Alguém antecipou o meu comentário e já disse: “sempre chove na Sexta-Feira Santa”. Ninguém aqui é particularmente praticante de uma religião. O cristianismo, contudo, está na base cultural de quem somos. Toma forma nas palavras que empregamos, no modo de pensar e de ver o mundo.

O discurso religioso modela a língua portuguesa. Constrói uma discursividade das mais significativas, que estrutura o uso cotidiano do português, criando uma camada discursiva que persiste mesmo nos mais variados contextos. Aparece desde as interjeições, como “nossa!”, até às referências que temos do que sejam tentação, pecado e redenção, por exemplo.

Em 25 de março de 2026, a Assembleia Geral da ONU aprovou uma resolução que declarou o tráfico transatlântico de africanos escravizados e o processo de escravização consequente desse tráfico como o mais grave crime contra a humanidade. A votação final teve 123 Estados-membros a favor, três contra e 52 abstenções, incluindo Portugal, Espanha e todos os demais países da União Europeia. Um silêncio sepulcral de morte que diminui em muito o discurso que alimenta essa entidade de defesa dos princípios de justiça e igualdade.

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A ideia defendida é que o tráfico de africanos escravizados tal como foi feito rompeu profundamente a história humana com consequências que se fazem ver até hoje. É muito ingênuo diminuir a complexidade desse fenômeno a meia dúzia de países possuídos pelo mal absoluto. O sentido de “possuídos” aqui foi religioso, mas irônico. Meu paciente leitor pode imaginar que as camadas do problema são variadas e profundas e envolvem as mais diferentes entidades.

Envolve países como os Estados Unidos e o Brasil, que construíram sobre a escravização de africanos as suas estruturas econômicas e sociais. No Brasil, o trabalho escravizado impulsionou os ciclos do açúcar, do ouro e do café, moldando uma sociedade profundamente hierarquizada que normatizava a exploração humana para acumular riquezas. Nos Estados Unidos, a economia agrícola do Sul, baseada no algodão e no tabaco, dependeu visceralmente da mão de obra cativa, financiando a Revolução Industrial no Norte.

O fim legal da escravidão não desfez as desigualdades estruturais. O racismo construiu seu próprio discurso e modelou a identidade dessas nações, reforçando a marginalização socioeconômica da população negra. A abolição legal não desfez as desigualdades: foi seguida por políticas de Estado excludentes, como a Lei de Terras no Brasil e as leis de Jim Crow nos EUA. O racismo sistêmico e a marginalização atual da população negra são legados diretos desse modo de ver o mundo que, como cantou Elza Soares, considera, até hoje, que "a carne mais barata do mercado é a carne negra".

Não podemos esquecer também que alguns agentes africanos tiveram responsabilidade central por participação e cumplicidade no tráfico de pessoas escravizadas. Elites, chefias e redes locais africanas participaram na captura, negociação e venda de pessoas escravizadas, motivadas por interesses econômicos, rivalidades, cálculos políticos ou outros interesses perversos que foram decisivos para o sucesso desse sistema criminoso.

Impulsionada pela demanda insaciável das Américas e pela introdução de armas de fogo europeias, que alteraram drasticamente o equilíbrio de poder no continente africano, líderes do Reino de Daomé e do Império Ashanti promoveram a captura de negros em seus domínios.

O Cristianismo, tanto a vertente Católica, quanto a Protestante, não pode ficar de fora dessa lista de responsabilidades, pois falhou em se opor oficialmente ao fenômeno na sua origem e, em vários momentos, forneceu a justificativa moral, teológica e legal para a sua existência e expansão.

O Papa Nicolau V emitiu, em 1452 a bula “Dum Diversas” que concedia ao rei Afonso V de Portugal o direito de "invadir, buscar, capturar, subjugar e reduzir à escravidão perpétua" muçulmanos. Poder esse ampliado com a bula Romanus Pontifex, de 1455, que garantia a Portugal o direito ao comércio e à exploração na costa ocidental da África. Para justificar a escravização específica de africanos negros, teólogos, tanto católicos quanto protestantes, defendiam que eles eram uma raça amaldiçoada.

Silêncio da União Europeia

Muitas ordens religiosas católicas e igrejas protestantes, como a Igreja Anglicana, por meio da Society for the Propagation of the Gospel in Foreign Parts (SPG), foram proprietárias de plantações, onde utilizava o trabalho de escravizados marcados a ferro e fogo. Numa lógica perversa defendia-se que o tráfico, apesar de seus horrores físicos, representava um resgate espiritual, pois permitia a salvação das almas, que poderiam ser batizadas e conhecer o cristianismo.

Na mesma lógica, o político e escritor brasileiro José de Alencar defendia que a escravização havia permitido que “essas pessoas” pudessem conhecer as vantagens da civilização, o que quer que isso pudesse, de fato, significar.

Mas, claro, não podemos fugir do fato que os Estados Europeus foram os principais responsáveis pelo tráfico transatlântico, porque o transformaram em sistema econômico, marítimo, jurídico e racial, sendo ele a mola de seu progresso. E é triste, mas temos de aceitar a realidade: Portugal teve papel central, abrindo rotas, montando feitorias, articulando mercados atlânticos, abastecendo sobretudo o Brasil, onde se modelou uma vergonhosa elite exploradora. É inegável que sem essa engrenagem imperial, a escravização em massa não teria atingido tal escala.

O silêncio da União Europeia é morte dos seus alegados princípios cristãos desenhados à luz da filosofia de Jacques Maritain. Enquanto à beira da piscina alguns brigam pela cerveja mais gelada, eu rabisco essas ideias e penso nos paralelos. Amo os princípios cristãos, eles são constitutivos não apenas da minha discursividade, mas da pessoa que desejo ser. Mas ouvir esse silêncio de Portugal que grita, ao passo que mais um conhecido se queixa de ter ouvido alguém dizer “Volta para a tua terra”, dá-me uma sensação árida de velório.

Nunca soube como comportar-me em velórios. Há pouco que efetivamente se possa dizer para que algo mude. Mas a presença, o fato de estar ali, é que faz a diferença. Então eu estou aqui. Esperando a ressurreição do bom povo português, lembrando que muitos sequer se deitaram nos raciocínios fáceis da ignorância.

Eu não estou sozinho. Esperamos. Há uns dois mil anos, essa espera provocou uma revolução muito mais importante que o tráfico atlântico de escravizados. Uma revolução que resultou no cristianismo, essa religião que me decepciona tanto quanto fascina e me diz que podemos esperar ressurreições daqui a um tantinho. Nem seria a primeira vez...


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