O problema não é o Volta. É a miséria que ele tornou visível
Carlos Moedas pediu ao Governo que cancelasse o sistema Volta, classificando-o como um “drama social” e um problema de higiene urbana em Lisboa. O sistema, em vigor desde Abril, permite recuperar dez cêntimos por cada garrafa ou lata abrangida, mediante devolução nos pontos de recolha. O problema, segundo a câmara, é que há pessoas a remexer contentores e ecopontos à procura dessas embalagens, deixando lixo espalhado pela cidade.
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A imagem é incómoda. Pessoas a abrir sacos, a entrar em contentores, a procurar garrafas entre restos de comida e lixo doméstico. É incómoda para quem passa, para quem vive nos bairros, para quem limpa, para quem governa e para quem prefere que a pobreza permaneça organizada, discreta, longe da vista.
Mas talvez a pergunta certa não seja apenas se o Volta criou um problema de saúde pública. Talvez seja outra: que problema de saúde pública, pobreza e dignidade já existia para que dez cêntimos por embalagem se tornassem suficientemente importantes para levar pessoas a remexer o lixo?
O Volta pode ter revelado um problema de higiene urbana. Mas revelou, antes disso, um problema social.
E é aqui que a discussão se torna menos confortável. Acabar com o Volta pode reduzir sacos rasgados, contentores virados, lixo espalhado na rua. Pode aliviar a pressão sobre os serviços de higiene urbana. Pode até resolver parte da imagem que agora incomoda Lisboa. Mas não resolverá a razão pela qual há pessoas........
