A batalha de Ceuta
Há batalhas que começam antes de sabermos quem as declarou. Outras começam no momento em que alguém lhes escolhe o nome.
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Em Ceuta, dezenas de milhares de pessoas atravessaram, em poucas horas, a fronteira entre Marrocos e Espanha. Entraram pela praia, contornaram o molhe, lançaram-se ao mar. A cidade ficou sem capacidade de resposta, o exército foi mobilizado e houve mortos.
A dimensão da crise era real. Mas, antes de se compreender exactamente o que acontecera, já existia uma explicação pronta: a Europa estava a ser invadida. A palavra chegou antes dos factos.
“Invasão” é uma palavra politicamente perfeita. Dispensa contexto, transforma indivíduos numa massa e converte uma crise concreta numa guerra civilizacional. Onde há invasores, tem de haver um inimigo. E, uma vez escolhido o inimigo, deixa de ser necessário perguntar por que razão a fronteira falhou, como circulou a informação ou quem poderia ter impedido a passagem.
Em poucas horas, milhares de pessoas, muitas delas jovens marroquinos, deixaram de ser vistas como indivíduos. Tornaram-se uma imagem: homens a avançar sobre a Europa. Os rostos, as idades, as histórias e as motivações desapareceram. Restou a multidão.
É desse desaparecimento que a extrema-direita se alimenta.
Não precisa de ter organizado a crise para beneficiar dela. Basta-lhe controlar a forma como é contada. Fazer com que a primeira imagem seja mais poderosa do que qualquer explicação posterior. Conseguir que a palavra “invasão” se imponha antes de sabermos quem entrou, por........
