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Quando a garrafa cai do céu...

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Há quase meio século, um piloto atirou de uma avioneta uma garrafa de Coca-Cola vazia sobre o deserto do Kalahari. Assim começa Os Deuses Devem Estar Loucos, comédia de 1980 que muita gente da minha geração viu numa sala de bairro e que me tem voltado à cabeça sempre que alguém afirma, com ar solene, que a inteligência artificial “chegou às escolas”.

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Recordo o enredo. Xi e o seu povo nunca tinham visto vidro. Os deuses, concluíram, só podiam ter enviado aquilo por bem, e a garrafa serviu para tudo: alisar peles, fazer música, moer raízes. Mas havia uma garrafa e muitas mãos. Pela primeira vez, aquela comunidade conheceu a inveja, o roubo e a pancada. Xi, sensato, decide que o objeto é maligno e parte para o fim do mundo a fim de o devolver aos deuses. Pelo caminho cruza-se com a nossa civilização: guerrilheiros, um biólogo desastrado e uma professora acabada de chegar à aldeia, que descobre que ensinar é bem mais difícil do que o diploma prometia. Uma professora, claro.

Uma ressalva necessária: o filme envelhece mal na forma como retrata os povos San, com um paternalismo de época. Aproveito a parábola, não a etnografia.

A garrafa e os deuses

A parábola é nossa. A IA generativa caiu-nos do céu, gratuita, fluente em português e disponível para tudo: resumir, traduzir, corrigir, inventar, copiar. Como a garrafa, não é neutra. Onde havia um objeto passou a haver conflito: alunos que a usam às escondidas, professores que a usam às escondidas dos alunos, pais que perguntam se aquilo é batota, direções que não sabem se é proibido. A primeira lição é simples: a tecnologia não chegou à escola porque a escola decidiu. Chegou por cima.

A segunda lição é a que mais me interessa politicamente. A garrafa não caiu do céu: foi atirada. Por alguém, de uma avioneta, com interesses. A IA não é um fenómeno meteorológico. Tem proprietários, modelos de negócio, servidores, termos de utilização e uma tendência incómoda para tratar como matéria-prima os nossos dados e os dados das nossas crianças. Falar da “chegada” da IA como se fosse uma trovoada é a mais........

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