O que nos dizem estas meias?
Na bifurcação da rua Gonçalves Zarco, tenho duas opções de caminho: virar para a esquerda ou para a direita, para a rua José António Madeira, geógrafo, astrónomo e matemático, ou seguir em frente pela rua João Lúcio, poeta e político. Sem saber por onde seguir, aguardo um sinal. Para quem caminha sem rumo, um sinal pode ser qualquer coisa: um gato assustado, o assobio de um pássaro, um sino a dobrar, o motor de um carro, uma flor murcha, uma borboleta à deriva, um velho de olhos tristes. Caminhar sem rumo, devagar, acentua a nossa presença no lugar. Mesmo na paralisia momentânea da indecisão, na contradição dos pensamentos, ou numa fugaz evasão mental, a consciência persiste. E o caminho aparece, mesmo que ao caminhante não interesse nunca chegar a algum lugar.
Vozes de crianças alegres, risos e correrias rasgam o silêncio. A voz de uma mulher sobressai na algazarra, repreendendo as crianças. É dócil, mas firme, calando as vozes, os risos e o sapateado. Mas logo um grito solitário abre uma ferida no silêncio. Nova repreensão, mais firme que dócil. Justa. O grito soa bastante impertinente.
Avanço alguns metros até à entrada da Escola Básica Mãe Soberana, onde fotografo as meias penduradas no gradeamento e num comprido fio esticado numa parede. Estou a ler o cartaz que explica a razão da instalação das meias quando sou abordado por uma senhora de bata.
— Não pode tirar fotografias........
