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O que nos dizem estas meias?

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19.03.2026

Na bifurcação da rua Gonçalves Zarco, tenho duas opções de caminho: virar para a esquerda ou para a direita, para a rua José António Madeira, geógrafo, astrónomo e matemático, ou seguir em frente pela rua João Lúcio, poeta e político. Sem saber por onde seguir, aguardo um sinal. Para quem caminha sem rumo, um sinal pode ser qualquer coisa: um gato assustado, o assobio de um pássaro, um sino a dobrar, o motor de um carro, uma flor murcha, uma borboleta à deriva, um velho de olhos tristes. Caminhar sem rumo, devagar, acentua a nossa presença no lugar. Mesmo na paralisia momentânea da indecisão, na contradição dos pensamentos, ou numa fugaz evasão mental, a consciência persiste. E o caminho aparece, mesmo que ao caminhante não interesse nunca chegar a algum lugar.

Vozes de crianças alegres, risos e correrias rasgam o silêncio. A voz de uma mulher sobressai na algazarra, repreendendo as crianças. É dócil, mas firme, calando as vozes, os risos e o sapateado. Mas logo um grito solitário abre uma ferida no silêncio. Nova repreensão, mais firme que dócil. Justa. O grito soa bastante impertinente.

Avanço alguns metros até à entrada da Escola Básica Mãe Soberana, onde fotografo as meias penduradas no gradeamento e num comprido fio esticado numa parede. Estou a ler o cartaz que explica a razão da instalação das meias quando sou abordado por uma senhora de bata.

— Não pode tirar fotografias às crianças —, diz-me a senhora no tom com que repreendera as crianças pouco antes.

— Claro que não. Eu estou a tirar fotografias às meias, as crianças já não estão aqui. Correram para dentro quando lhes ralhou… —, brinco.

Atrapalhada, a senhora afasta-se sem responder. Eu mantenho-me a observar as meias que assinalaram, a 3 de dezembro, o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. E que ali permanecem, em meados de fevereiro, lembrando que somos “Todos iguais na diferença”.

Na rua do Serradinho ouve-se música. Procuro a origem. Não demoro a encontrar o edifício que abriga a Sociedade Filarmónica Artistas de Minerva e o Conservatório de Música de Loulé Francisco Rosado. Entro e subo as escadas. Imagino os degraus como teclas de piano onde os meus passos extraem uma única nota desafinada: a madeira a ranger. Num grande e luminoso estúdio, encontro os professores Joana Fernandes e Vítor Silva a tocarem trompete e tuba, respetivamente. Sento-me a ouvi-los. Numa das pausas, estranhando as interrupções constantes, que me relembram a minha forma de caminhar sem rumo, pergunto:

— O que estão a tocar? Porque estão sempre a parar?

— Estamos a ensaiar rotinas, é um aquecimento —, explica Joana.

— E por agora já está, tenho de ir… —, diz Vítor, apressado.

Observo-os enquanto arrumam os instrumentos em silêncio. Um silêncio diferente. Nesta sala muito bem insonorizada, o silêncio não é uma mera ausência de ruído. É um silêncio mais profundo, que permite à música que acabei de ouvir ressoar na memória, intensificando as emoções que me despertou.

— Abrigue-se aqui —, diz Luís Babeiro, ao ver-me parado na rua de Portugal a espreitar o seu atelier.

O espaço tem o chão em madeira clara, coberto em grande parte por um tapete de sisal rústico, de cor neutra. Ao fundo, há uma arcada em arco, suportada por colunas com capitéis decorados e fustes canelados, na transição para um segundo espaço, parcialmente coberto por cortinas translúcidas brancas.

Luís conta-me que fugiu de “uma Lisboa completamente descaracterizada, vendida, com rendas altíssimas, uma Lisboa que não é para os portugueses, mas para os estrangeiros”. Em Loulé, abriu um atelier/loja que vende peças exclusivas ou por medida. “Algumas peças são inspiradas no fado, na Amália, que conheci, enfim, nas nossas coisas, na nossa tradição. Estas, por exemplo, são inspiradas em Loulé”, diz, apontando para três vestidos pendurados num bengaleiro metálico branco. “Este azul tem a cor do nosso mar. O verde reflete os campos em redor de Loulé. E o bordeaux e vermelho é o litúrgico, a Mãe Soberana, uma figura marcante nesta terra.”

A poucos dias do Carnaval, nas ruas de Loulé desfilam pessoas enfeitadas de guarda-chuvas de todas as cores. Observo-as abrigado no Quiosque da Ana, ao lado do Posto de Turismo, quando um chapéu de chuva preto se aproxima.

— Haver há, mas eu não tenho.

Não há nada como o cheiro de comida para nos abrir o apetite. Percorro nem cinquenta metros e encontro um restaurante. Cheio. Não é uma ciência exata, mas um restaurante cheio sugere que a comida é boa. O empregado indica-me um lugar e entrega-me a ementa. Quando me preparo para a abrir, uma feijoada a fumegar é servida na mesa em frente. O comensal abre os braços como se recebesse a mãe num abraço, arreda o prato para o lado e atira-se à travessa. Segundos depois, levanta-se com a urgência de quem foge à morte. Tira um pequeno frasco de um armário e regressa rapidamente à mesa, vertendo sem medo o seu conteúdo. Parece-me exagero, mas o homem deve conhecer o produto. Em menos de um minuto, engasgado e com lágrimas gordas escorrendo-lhe pela cara, apaga o fogo num trago que vaza o copo de tinto.

A Road Trip Literária - Ler é o Melhor Caminho, que sucedeu à Road Trip Literária - 18 Distritos, 18 Bibliotecas, 18 Livros, para voltar a dar palco às bibliotecas e voz a quem nelas trabalha, promovendo a leitura, a cultura e o conhecimento, reinventou-se. Para além das bibliotecas e dos autores locais, a 4.ª edição inclui outros projectos e iniciativas que valorizam a identidade das regiões, as suas pessoas e modos de vida.

O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990


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