O “País das Startups”: a grande comédia do empreendedorismo académico
Diz-se, nos corredores mais encarnados, dinâmicos e estofados do Ministério da Educação, Ciência e Inovação, que o futuro de Portugal não passa por compreender o funcionamento do Universo, mas por monetizá-lo em tranches de três minutos com música eletrónica de fundo. Entrámos, com a pompa pirotécnica de quem inaugura uma rotunda sem saída, na era dourada do Empreendedorismo Académico Forçado.
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A ordem de marcha emanada pela tutela é de uma clareza desarmante. Fechem-se os laboratórios de física teórica, guardem-se os manuais embolorados de filologia clássica no arquivo morto e despejem-se os frascos de biologia fundamental no cano mais próximo. O país já não precisa de mentes que pensem. Precisa de founders e CEO de sapatilhas brancas imaculadas, calças beges estrategicamente curtas pelo tornozelo e um vocabulário polvilhado de anglicismos saloios que fariam corar de vergonha um estagiário de vão de escada em Boston.
O novo modelo civilizacional português decretou que o valor real de um doutoramento já não se mede pelo avanço do conhecimento humano ou pelo impacto de uma descoberta na comunidade internacional, mas pela capacidade industrial de transformar uma tese de 700 páginas numa aplicação móvel disruptiva. De preferência, uma que entregue pastéis de nata quentes ao domicílio através de um algoritmo de inteligência artificial assente na blockchain. Se um jovem brilhante cometer a audácia de dedicar cinco anos da sua vida a investigar as mutações genéticas de uma bactéria rara, acalentando a esperança romântica de travar uma patologia degenerativa, o sistema olha para ele com a condescendência paternalista reservada aos loucos da aldeia.
“O teu trabalho é muito bonito e fofinho”, dir-lhe-á o vice-reitor para a inovação e........
