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A cigarra, a formiga e o Nobel: fábula do investigador português

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Portugal tem cientistas como a burguesia de antigamente tinha piano, para estar na sala e mostrar às visitas. Ou como a coleção de porcelana da avó, guardada no armário para não correr o risco de a usar. Tem hoje 66 mil, mais do que nunca, e continua a deixá-los a apanhar pó. Em outubro, a Suécia anuncia os Nobel e o país pergunta, com a mágoa de quem não foi convidado, porque não lhe calha nenhum. Calhou meio, em 1949, a Egas Moniz, por cortar ligações dentro do cérebro. O Estado nunca mais largou esse método lobotómico; desde 1949, corta sistematicamente as ligações cerebrais de quem tenta pensar.

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Convém não confundir. O país nunca teve ciência, teve cientistas, o que é diferente e sai muito mais barato. O Estado trata os cientistas como a Inquisição tratava os hereges, com desconfiança ancestral, desamparo financeiro e vontade de os queimar na praça pública da burocracia. O indígena respeita-os como respeita os padres, de longe e sem a menor tentação de os imitar.

Garcia de Orta morreu em Goa em 1568. Doze anos depois, a Inquisição desenterrou-lhe os ossos e queimou-os. Foi a nossa primeira avaliação final, com parecer desfavorável. Em 1759, o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas, que eram quem ensinava. Em 1772, querendo ciência em Coimbra, teve de a entregar a professores italianos. Em 1947, Salazar pôs na rua 21 professores e assistentes. Um deles chamava-se Pulido Valente. Queimar, importar, demitir, durante quatro séculos, a política científica foi esta. A democracia, que é pobre mas bem-educada, preferiu um quarto método, mais limpo e mais lento. Chama-se bolsa.

A fábula conta-se depressa. A formiga é uma pessoa com boas notas e más informações. Decide........

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