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Conservar o quê?

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28.09.2026

1. O problema da palavra

Algumas palavras funcionam como gavetas: abrem-se e lá dentro está o que se esperava. Outras funcionam como malas de viagem, e só se sabe o que levam dentro quando alguém as abre no aeroporto. “Conservador” é uma mala destas. Anda hoje nas mãos de muitas mulheres, em muitos aeroportos do mundo.

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Nos Estados Unidos chamam-lhe “mulherosfera”. São influenciadoras e ativistas que, entre uma receita de pão de fermentação natural e um vídeo contra a interrupção voluntária da gravidez, anunciam o regresso da esposa tradicional. No Brasil, a mala viaja em redes evangélicas e em gabinetes parlamentares, com deputadas à frente de campanhas contra aquilo a que chamam a agenda progressista. Os sotaques mudam, mas a mala é sempre a mesma. Todas juram que leva lá dentro as mesmas três coisas: família, fé e natureza.

Convém abri-la com cuidado, como se faz a tudo o que vem de longe. E isto vem de muito longe, embora nem sempre do passado.

2. O que um conservador conserva

Um conservador, no sentido clássico, olha para o que existe e desconfia de quem o quer mudar rápido e a uma só vez. Burke assustou-se com a Revolução Francesa, e não era por gostar de reis. Desconfiava de homens que, com uma folha de papel na mão e uma ideia luminosa, queriam refazer uma sociedade inteira entre o almoço e o jantar. Oakeshott foi mais longe e, ao mesmo tempo, mais modesto. Para ele, ser conservador era preferir o familiar ao desconhecido e o suficiente ao perfeito.

Um conservador é, portanto, alguém com uma relação afetuosa com o presente.

Guarde-se esta frase no bolso. Vamos precisar dela mais adiante.

3. Um exercício de inventário

Façamos então o inventário do presente, em quase todos os países onde estes movimentos florescem. As mulheres votam. Estudam. Trabalham fora de casa, têm conta bancária em nome próprio, divorciam-se, fundam empresas, partidos........

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