A vitória de André Ventura no Brasil não é o que parece
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À primeira vista, foi mesmo assustador para os defensores da democracia: o candidato da extrema-direita André Ventura teve mais votos no Brasil do que o candidato socialista António Seguro. Ventura ganhou nas urnas de nove dos 10 consulados de Portugal no Brasil. Ou seja, os portugueses que emigraram para o Brasil e seus descendentes que obtiveram a cidadania portuguesa votaram majoritariamente em um candidato que hostiliza e rejeita os brasileiros que imigraram para Portugal.
Ventura, no Brasil, teve 58,73% dos votos, Seguro, 41,27%. Resultado, pois, bem discrepante do obtido pelos dois candidatos na soma geral das apurações: 66,8% para Seguro e 33,2% para Ventura. O candidato da extrema-direita foi derrotado em todos os distritos de Portugal. Mas ganhou, apertado, entre os eleitores no estrangeiro: 50,81% contra 49,19%. Com grande contribuição dos eleitores no Brasil.
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Em Belém do Pará, Ventura teve a maior vitória no Brasil: 73,89% dos votos contra 26,11% de Seguro. O Pará, curiosamente, é o estado brasileiro com mais municípios com nomes de cidades portuguesas. São mais de 20, como Óbidos, Santarém, Bragança, Aveiro, Alenquer, Faro, Melgaço, Chaves, Ourém, Oeiras, Soure, Salvaterra. Lá há também o distrito onde está o porto de Vila do Conde e Belém é uma importante freguesia de Lisboa.
A vitória mais apertada de Ventura foi no consulado de Brasília, 51,02% a 48,98%. Seguro ganhou apenas em Porto Alegre, por 54,08% a 45,92%. Como os consulados são apenas 10, e o Brasil tem 27 unidades federadas, não são apenas os eleitores da cidade-sede que votam. Em Brasília, por exemplo, votam portugueses residentes em Goiás.
Esses são os números que assustam, e que levaram a conclusões apressadas, como a de que os portugueses residentes no Brasil são majoritariamente de extrema-direita, ou a de que os brasileiros que obtiveram cidadania portuguesa são, em maioria, bolsonaristas — pois Jair Bolsonaro e Ventura comungam o ideário neofascista. Pode ser que essas duas hipóteses estejam certas, mas os resultados da eleição no Brasil não servem para comprová-las.
Em primeiro lugar, é preciso observar que pouco mais de 4% dos eleitores recenseados votaram no Brasil. A abstenção rondou os 95%. Provavelmente votaram os que têm elevado sentimento cívico, mas principalmente os mais ligados à política portuguesa, seja para dar uma vitória — se não eleitoral, política — à extrema-direita saudosa do salazarismo, seja para eleger o candidato comprometido com a democracia restaurada em 1974 e consolidada nos anos seguintes.
Pode-se dizer que 4% é um índice superior ao considerado, nas pesquisas quantitativas, suficiente para obter um resultado com alto grau de confiança. Mas, nas pesquisas, as amostragens refletem a composição da população (gênero, idade, etnia, ocupação, renda). Nas urnas, não há amostragem que permita dizer que esses 4% ou 5% refletem o conjunto do eleitorado.
Outra observação a ser feita é a de que a radicalização política que se vê no Brasil é mais acentuada do que a verificada em Portugal. No Brasil, os dois campos que polarizam a política são praticamente equivalentes, como mostram as pesquisas.
Isso significa que os adeptos da extrema-direita e os que se colocam radicalmente contra qualquer tipo de esquerda — mesmo a mais moderada, como a socialista em Portugal — são mais numerosos no Brasil do que em Portugal. Isso pode ter se refletido nos resultados.
Mas, de qualquer maneira, a democracia venceu, apesar dos aproximadamente 2,5% de portugueses que votaram em Ventura no Brasil.
