A IA precisa de nós
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A discussão sobre a inteligência artificial tem sido dominada por extremos: ou celebramos a automação como solução para tudo, ou tememos um futuro em que a criatividade humana se tornará obsoleta. Mas existe um ponto cego nesse debate, e é exatamente nele que pretendo construir este espaço de reflexão com os leitores do PÚBLICO Brasil.
A maioria das IAs ainda não é agente criativa autônoma. Elas são, antes de tudo, sistemas que respondem à qualidade das perguntas que recebem. E é aqui que entra o fator humano: repertório, sensibilidade, contexto, intenção. Sem isso, não há inteligência e ficamos apenas com a repetição.
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Após mais de uma década atuando no audiovisual e no jornalismo, e hoje como pesquisadora dedicada aos impactos da IA nos processos criativos, venho observando uma mudança estrutural no modo sobre como histórias são pensadas, produzidas e distribuídas. Não se trata apenas de novas ferramentas, mas de uma reconfiguração profunda do papel de quem cria.
Estamos entrando em uma era em que saber escrever bem já não é suficiente. É preciso saber pensar antes de pedir. Estruturar ideias, definir tom, construir narrativa, entenderobjetivos. Em outras palavras: a criatividade passa a incluir também a habilidade de dirigir máquinas.
Ao mesmo tempo, essa transformação levanta questões urgentes. Quem assina uma ideia gerada com IA? Quais limites éticos devem ser estabelecidos? Como preservar identidade autoral em um ambiente cada vez mais automatizado? E, principalmente, como evitar que a padronização substitua a originalidade?
Nosso objetivo é acompanhar e, claro, tensionar esse novo cenário. A partir de casos reais, bastidores de produção, reflexões teóricas e aplicações práticas, proponho um olhar que não romantiza nem demoniza a tecnologia, mas a coloca em perspectiva: como ferramenta, não como substituição.
Porque, no fim, a IA pode até acelerar processos. Mas ainda depende de algo que não se automatiza: visão. E é exatamente por isso que a IA precisa de nós.
