Os “comboios” de solidariedade
Agora, já se fala e escreve pouco sobre o “comboio” de tempestades que assolaram o país. Como aconteceu com as anteriores vítimas das tragédias, sobretudo as dos fogos florestais, que assolaram uma parte significativa do nosso território nacional, não fiquem, agora, estas novas vítimas entregues à sua sorte, enredadas em estéreis burocracias e processos infindáveis. Isso é o que frequentemente acontece aos nossos concidadãos empobrecidos pela devastação do seu património pessoal, familiar e empresarial, bem como às instituições de solidariedade, de educação, de saúde, de cultura, de desporto e religiosas. É que, quando se apagam os “holofotes” mediáticos, tem sido hábito resfriarem-se os calores emotivos e ficam no terreno, apenas, as autarquias e as organizações locais a debaterem-se pelo cumprimento de promessas feitas com abundância.
Imediatamente a seguir ao “comboio” de tempestades, como há muito não tínhamos memória, pôs-se em marcha um “comboio” de solidariedades. Bens de toda espécie começaram logo a ser doados. Gente, de muitos outros locais, apareceu para doar o seu tempo na ajuda à limpeza de casas, de caminhos, de serviços públicos indispensáveis e na proteção de animais. Enfim, foram muitos os destinos deste “comboio”. O nosso povo é mesmo muito generoso. Parece que quanto maiores são as tragédias mais se lhe aguça a dádiva de si e do que lhe pertence. Muitas dessas pessoas não têm compromissos mais regulares com o serviço ao bem comum, através da prática do voluntariado, mas são indispensáveis nestas horas de maior aflição. Ainda não encontrei para esta forma de praticar a cidadania uma designação que bem a identificasse, mas sei que, na revisão da Lei de Bases do Voluntariado, que deve ser feita urgentemente, estes não podem ser esquecidos.
Todavia, sem pôr em causa esta espontaneidade, há-de ser criada pela Confederação Portuguesa de Voluntariado, em consonância com as estruturas nacionais e locais da Proteção Civil, uma plataforma onde se possa registar quem esteja disponível para ações voluntárias não regulares. É que acontecem, por vezes, tragédias menores que passam fugazmente nos media ou mesmo nem chegam a passar, mas que reclamam, num primeiro tempo, ajudas solidárias imediatas. Este processo permitiria apoios mais eficazes, evitando sobreposições de meios e de tarefas. A plataforma deve estar conotada com o Bancos Locais de Voluntariado. Seja como for, é bom ter-se sempre presente que a solidariedade não se deve sobrepor à justiça social, mas complementá-la com os suplementos de alma que as proximidades garantem.
Por isso, e por experiência própria, estou certo de que as populações afetadas poderão contar sempre com as forças vivas locais e com os meios que estas tenham à sua disposição. Contudo, para além dos bens materiais que possam disponibilizar, elas deverão ter um papel muito importante de não deixar cair no esquecimento das entidades com maiores responsabilidades o drama das suas gentes. Seria bom que, nos próximos debates quinzenais, em que o Governo vai ao Parlamento prestar contas, ele mesmo tivesse a iniciativa de informar como está a decorrer a implementação das medidas prometidas. Por outro lado, a comunicação social deveria dar espaço à divulgação do que as entidades locais vão fazendo, porque o povo tem o direito de saber como estão a ser aplicados os bens que doou.
Por fim, o meu regozijo vai também para os abnegados autarcas e aos trabalhadores das autarquias que velaram, dia e noite, para socorrem os mais indefesos. Na verdade, é sempre quem está mais próximo quem melhor vê, porque além de ver com os próprios olhos, também consegue ver com o olhar do coração.
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
