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Explique-me, como se eu tivesse seis anos

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02.02.2026

Explique-me, como se eu tivesse dez anos. Ou melhor. Como seu tivesse seis anos.

Com seis anos, eu aprendia na escola rodeada de pinheiros da minha cidade natal — Leiria —, que as estações do ano marcavam as divisões climáticas e eram muito diferentes entre si. O verão: quente com os dias longos para ir à praia; o inverno: frio com os dias curtos, em que os animais hibernavam, como a minha tartaruga que se recolhia dentro da sua carapaça no pequeno aquário; a primavera: com flores e temperaturas amenas; e o outono, que era o tempo em que as árvores cheias de cores deitavam as folhas ao chão, com uma piscadela de olho, para que pudéssemos divertir-nos a pisá-las com as solas dos sapatos.

Havia um detalhe particular: no verão, o imenso Pinhal de Leiria enchia-se de umas pérolas brancas chamadas camarinhas, umas pequenas bagas selvagens que comíamos deliciados até a barriga acusar o excesso de gula. Hoje, o imenso Pinhal não existe. E as árvores da escola estão todas no chão, arrancadas pelo vento.

Explicaram-me, quando eu tinha seis anos, que se não travássemos os efeitos da poluição a Terra ia ficar doente, e por isso, sempre que eu tinha uma dor de barriga e ficava deitada na cama, com o termómetro na axila, imaginava o que seria uma dor de barriga do tamanho do planeta inteiro. Não me parecia coisa fácil de resolver com colheres de xarope ou com o leite com mel que a minha mãe me dava.

Na escola, com seis anos, desenhava retratos do planeta feliz, ao lado do planeta triste e cinzento com um termómetro debaixo da axila (o sovaco situava-se ali pelo oceano Pacífico) e numa espécie de propaganda medrosa escrevia: “Se não acabarmos com a poluição, quando eu for velhinha o planeta vai ficar........

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