“Querer é poder”
“Querer é poder!” O recorte de papel, gasto, rasgado de uma publicidade de revista, no tempo em que as publicidades ainda se podiam rasgar, exibe a frase em letras redondas. O resto da publicidade (do que seria? de um carro? de uma agência de viagens?) há muito desapareceu. Só o recorte permanece debaixo do retrato da Avó, que olha diretamente para o obturador da lente, enquanto segura o Pai bebé ao colo, tensa, impaciente, à espera que o fotógrafo despache a gravação pleonástica do momento, no tempo em que as fotografias não eram uma mais-valia de desempenho, nem um acréscimo de valor ao corpo, eram, para mulheres como a Avó, um compasso de espera, nada mais. Avó e Pai são agora dois corpos idos. Mas no retrato, a Avó ficou à espera, para sempre.
Ela precipita-se sobre os ténis gastos, tão gastos como a frase no papel, repete-a, em surdina, como uma oração, dizem que as coisas que se repetem muitas vezes se materializam. Só espera que se materialize em estado sólido, é difícil agarrar coisas em........
