Consensos
O poeta está diante de sua escrivaninha; caneta tinteiro nas mãos, coçando a careca. Calmamente, rabisca as primeiras linhas de um novo poema. Súbito, levanta-se; vai até o telefone preto discando o número de um colega:
- Manuel? Bom dia! Olha, estou com uma dúvida ...
- Pois não, Carlos ...
- Estava andando no meio do caminho e tinha uma pedra. Então, pensei: e se fosse uma garrafa vazia? Um sapato velho? Uma lata?... O que você acha?
Manuel pediu um instante; refletiu; deu sua opinião. Carlos anotou-a. Depois ligou para Vinicius, Cecília, Quintana e Murilo perguntando a mesma coisa: a preferência de cada um sobre o objeto no meio do caminho. Mas, no fim da tarde, atormentado, Carlos jogou as anotações no lixo e deixou “pedra” mesmo, como pensara desde o início.
Centro cirúrgico de um hospital. O paciente vai receber um transplante de coração. O médico toma o bisturi, ergue-o. Porém, interrompe o gesto no ar:
- Um momento!... Vamos........
