O cheiro da fumaça
Não sei exatamente quando isso começou, mas, toda vez que leio no jornal notícias de uma guerra, sinto cheiro de fumaça entrando pela janela do apartamento. Durante algum tempo atribuí essa impressão às fotografias, como se os olhos, incapazes de permanecer sozinhos diante do que viam, convocassem o restante do corpo para completar a cena. Hoje não procuro explicação tão depressa. Levanto-me, abro a janela e verifico o que acontece lá fora.
Fortaleza continua vivendo sua manhã sem qualquer sinal de incêndio. Um ônibus atravessa a avenida, o entregador equilibra a motocicleta junto à calçada, uma mulher sacode um tapete na varanda do prédio vizinho e, mais adiante, alguém abre as janelas para deixar entrar o vento que ainda traz alguma coisa do mar. Nada naquela paisagem justificaria o cheiro, mas ele permanece por alguns minutos, discreto e obstinado, como se a distância não fosse suficiente para impedir certas coisas de chegar.
Nunca estive numa guerra, nunca ouvi uma bomba cair nem precisei decidir, em poucos minutos, o que........
