É só água
Na cozinha de Carmy, quase tudo parece estar a poucos segundos de dar errado. O fogo sobe, as facas batem contra as tábuas, os pedidos se acumulam, alguém chama por alguém e todos respondem “sim, chef” com a urgência própria dos lugares onde alguns minutos podem separar um jantar impecável de uma pequena catástrofe. Quem assiste a O Urso, série criada por Christopher Storer, percebe logo que o barulho não vem apenas da cozinha.
Carmen Berzatto, o Carmy, interpretado por Jeremy Allen White, é um chef jovem e brilhante que trabalhou em algumas das cozinhas mais exigentes do mundo. Depois do suicídio do irmão mais velho, Michael, ele retorna a Chicago para assumir o pequeno restaurante deixado pela família, o The Original Beef, e encontra dívidas, relações interrompidas, dependência química atravessando a história familiar, promessas quebradas e aquela intimidade difícil que certas famílias conservam mesmo quando já não sabem muito bem o que fazer umas com as outras.
Ao lado de Sydney, Richie, Tina, Marcus, Sugar e dos outros integrantes daquela família improvisada, Carmy tenta transformar a velha lanchonete num restaurante de alta gastronomia chamado The Bear. Derrubam paredes, substituem equipamentos, reorganizam o cardápio, discutem, erram, recomeçam e aprendem a trabalhar juntos. Há reformas que uma marreta resolve; outras continuam de pé depois que todas as paredes caíram.
Foi numa cena sem cozinha que compreendi melhor Carmy.
No terceiro episódio da segunda temporada, ele aparece numa reunião do Al-Anon, grupo de apoio para pessoas afetadas pelo alcoolismo de alguém próximo. Não há panelas no fogo, pedidos acumulados ou pratos esperando finalização. Durante boa parte da cena existe apenas seu rosto e uma tentativa difícil de colocar em palavras aquilo que seu corpo parece saber há muito tempo.
Carmy conta que, na infância, as coisas que lhe davam entusiasmo ou prazer acabavam estragadas. Não acredita necessariamente que sua família fizesse isso de propósito; as pessoas tentavam demais, prometiam coisas que depois não conseguiam cumprir e alguma coisa sempre acontecia. Em determinado momento, admite que precisa lembrar de respirar, de estar presente e de reconhecer que o céu não está caindo, embora sua experiência lhe tenha ensinado justamente a desconfiar dos períodos em que nada cai.
Fiquei pensando nisso depois que o episódio terminou, porque há pessoas para quem uma tarde tranquila não é propriamente tranquila; é apenas o intervalo suspeito entre duas coisas ruins. Não são necessariamente pessimistas, dramáticas ou incapazes de desfrutar a vida. Às vezes, viveram tempo suficiente em ambientes imprevisíveis para que antecipar se tornasse uma maneira inteligente de permanecer a salvo. Aprenderam a perceber a........
