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FC Porto: a "sala de máquinas" tornou-se uma "casa de monstros"

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24.03.2026

Existe a tendência de analisar as opções dos treinadores em função do onze inicial, mas, na maioria das vezes, a sua grande influência é no decorrer do jogo, na forma como reagem às suas incidências. Farioli deu essa prova no jogo de Braga. Ainda Zalazar não tinha convertido o penálti e já ele falava com o banco sobre a forma de reagir à desvantagem iminente e as missões dos jogadores a meter.

Ia mudar a dinâmica da ala direita: em vez do jogo de ir para dentro (quase um médio) de Pepê, lançou o rasgo da individualidade de William Gomes (diagonal ou vertical) e, dez minutos depois, um médio de músculo para resgatar o meio-campo, Fofana, capaz de recuperar bolas e comer metros com ela (tirando o toque-passe de Gabri).

Há momentos em que os jogos (todos diferentes consoante o resultado a que se reage) pedem outras coisas, mas este exigia esse poder forte de afirmação. No estilo e no impacto tático. O jogo mudou pelo seu centro. A "sala de máquinas" tornou-se uma "casa de monstros". Dois, decididos a comer todas as bolas e espaços: Froholdt e o lançado Fofana.

Juntos, empurraram para trás o jogo bracarense, que deixou de ter bola em zonas adiantadas para controlar o jogo. Nessa dinâmica de monstros com bola, a "reação-Farioli" (o verdadeiro "homem do jogo" pelo impacto que as decisões tiveram nele) impulsionou o FC Porto para virar o resultado.

Juntem a estes monstros em ação a velocidade do rato polaco Pietuszewski e os cortes a tirar tudo na defesa do gigante-central Bednarek.O Braga assumiu um jogo de risco ambicioso na forma como aposta num 3x4x3 com bola, que deixou em "jogo de pares" (três para três) a sua linha recuada (os seus três centrais para os três avançados portistas que sacaram dois amarelos nessas jogadas um para um).

Dessa forma, deixou mais evidente como sabe jogar bem com a bola, mas sofre demais quando a perde e se expõe na transição defensiva (não reage bem no imediato pós-perda). Viveu, assim, sempre no limbo de se desequilibrar pela forma como este FC Porto é certeiramente agressivo a pressionar para roubar a bola nos momentos certos e lançar logo o ataque rápido (quer em passes verticais progressivos, quer em passes longos a atacar a profundidade, como na bola que Kiwior meteu para Pietuszewski passar Moscardo, central mal adaptado, e dar o empate).

Uma vitória como afirmação de personalidade reativa. São as mais fortes vindas do treinador.

Aursnes brilha na ausência

Um jogador pode ser opção para entrar no onze não exatamente por aquilo que é, mas em função do que pode dar na ausência de outro. Não estou a falar numa troca direta na posição, mas sim nos efeitos deflagrados em várias posições (e, consequentemente, no jogo coletivo) que a ausência desse jogador (de posição diferente) tem.

Mourinho falou disso quando, perguntado porque, na posição de segundo-avançado, jogou Sudakov em vez de Rafa, respondeu falando em... Aursnes e nas implicações que a sua falta lhe fazia: "Meti o Sudakov porque, sem o Aursnes, a equipa já perdeu controlo do jogo, fluidez, consistência, critério, capacidade de recuperar a bola, muita coisa".​

Não tendo quem o substituir diretamente, teve a opção-Sudakov porque, mais do que ter o segundo-avançado vertical (Rafa), quis alguém que, pelas características mais de condução, a pegar na bola como organizador, soubesse baixar no terreno para funcionar quase como complemento para o meio-campo taticamente enfraquecido sem Aursnes.

A passagem de Aursnes para o centro, a certo ponto da época, desfazendo a opção Enzo-Rios, foi o momento tático mais importante de Mourinho no Benfica. Permitiu-lhe, por fim, ver a equipa toda a partir dum jogador na posição taticamente mais importante.


© O Jogo