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A guerra e os seus comentadores

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27.03.2026

Depois do fenómeno televisivo dos comentários pós-debate político, com as notas, e pós-jogo do futebol, com as análises dos lances polémicos e de erros da arbitragem, estamos, agora, a assistir ao espectáculo dos comentadores da guerra nos diferentes canais portugueses, que servem, no essencial, para preencher o vazio noticioso.

Algo que se torna mais gritante numa altura de forte concorrência entre os canais de notícias e de crise do protagonismo da televisão como meio, por excelência, de difusão da informação, devido ao surgimento das redes sociais e dos serviços de streaming.

No combate ao vazio noticioso criou-se uma hiperbolização do comentário sobre a guerra, com a mobilização de uma quantidade desmesurada de sujeitos versados em assuntos de política internacional, cujo campo de estudo não passa necessariamente pelo Médio Oriente. Mas esta limitação nunca é anunciada. E mesmo o desafio analítico de compreender um fenómeno em curso é, igualmente, ignorado.

Os comentários são, essencialmente, baseados em fontes jornalísticas, visto que ninguém está, efectivamente, a produzir um estudo académico sobre as causas da guerra em curso e o respectivo desenvolvimento no terreno.

Mesmo um estudo sério dificilmente dispensaria a apresentação das várias causas da guerra. Por isso, este tipo de comentário projecta no espaço mediático a narrativa da guerra e acaba por ampliar a manipulação sobre a mesma, visando, portanto, assegurar a vitória da percepção da guerra.

Estes comentadores já não estarão no activo quando forem estudados os efeitos da guerra e os respectivos dilemas de segurança, particularmente se o pós-guerra resolveu os dilemas de segurança na região. Porque são parte de uma sociedade de consumo, onde tudo é líquido e desaparece tal como a bruma, sem consistência ou solidez.

Enquanto os efeitos da guerra são massas sólidas que permanecem intactos e moldam o chão de um território, com sangue e dor, os comentadores escolhem ampliar a guerra como um produto televisivo e de consumo imediato. E essa escolha tem efeitos nefastos e profundos.

Quando um Estado não entra em erosão ou o regime se mantém intacto, isto não significa que o pós-guerra seja um processo de menor complexidade societal. Porque a guerra passa a ser a inscrição histórica de um povo e paira, assombrando os espíritos de uma sociedade. Por isso, a guerra permanece como um eterno fantasma que pode estar ao virar da esquina. Sempre.


© Jornal Económico