A hora da Europa
Há um momento em A Ilíada em que Heitor percebe que Tróia não cairá por falta de coragem, mas por excesso de confiança numa ordem antiga que já não responde ao presente. O inimigo não mudou apenas de rosto. Mudou de lógica. A tragédia não nasce da força do outro, mas da recusa em aceitar que o mundo deixou de funcionar como antes. A Europa vive hoje esse exacto instante “heitoriano”, ainda com os olhos presos a uma parceria estratégica que já não existe.
Durante décadas, a relação transatlântica foi mais do que uma aliança. Foi uma arquitetura moral, política e militar assente na ideia de que o poder americano, por mais duro que fosse, vinha embrulhado numa noção de interesse comum, de previsibilidade e de compromisso entre aliados. Tarifas existiam, tensões também, mas nunca sob a forma de intimidação sistemática, nunca como instrumento de humilhação política. Como bem lembrou Keir Staremer, as grandes alianças não se constroem com bullying económico nem com ameaças públicas. Constroem-se com regras, respeito e previsibilidade. Mas será que o mesmo aceita que esse mundo acabou?
Com Donald Trump, a relação entre os Estados Unidos e a Europa deixou de ser uma parceria estratégica para se tornar numa relação transacional, desequilibrada e deliberadamente coerciva. A Europa deixou de ser vista como aliada e passou a ser tratada como concorrente a........
