menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

As rotas que organizam o mundo

20 0
03.07.2026

Há uma guerra a decorrer que não se mede em território conquistado. Mede-se em rotas: no controlo de quem as domina e na exposição de quem delas depende. O Estreito de Ormuz e os cabos de dados que cruzam o Atlântico são hoje o campo de batalha entre Washington, Pequim e Moscovo, com a Europa no meio, mais alvo do que árbitro. E para perceber quem ganha é preciso desfazer uma confusão que a linguagem corrente alimenta.

Esta série parte de uma tese: o que parece caos na ordem internacional é reorganização com método, e o método é geoeconómico. O mecanismo central é o controlo das rotas. E há duas que a linguagem corrente confunde sob o mesmo nome.

Há rotas cuja função dominante é o abastecimento e rotas cuja função dominante é a circulação comercial. As primeiras servem para ir buscar o que falta dentro de casa, da energia aos alimentos, sem o qual a economia interna estagna. São cordões umbilicais, e o seu corte não retira mercado, retira sustento. As segundas servem para aceder a mercados de troca, e a sua perturbação retira oportunidade, não oxigénio. Na prática, quase nenhuma rota é pura, e a mesma via é abastecimento para uns e comércio para outros. Mas cada economia tem uma matriz dominante, e é essa matriz que define a vulnerabilidade.

A matriz americana é comercial. Os Estados Unidos dispõem de massa crítica nas camadas essenciais de uma economia completa, da energia às finanças, e por isso usam as rotas como instrumento de organização do sistema alheio, não como condição de sobrevivência. A matriz chinesa é a inversa. A China importa para transformar e exporta o transformado. As suas rotas são comerciais à saída e de abastecimento à entrada. É na entrada que reside a fragilidade, porque sem matéria-prima e sem energia a máquina pára.

Isto inscreve os Estados Unidos numa linhagem antiga. Veneza, Génova e as redes mercantis do Índico já operavam, antes deles, lógicas de controlo de nós e de fluxos. Mas foi Portugal o primeiro a sistematizar esse modelo à escala global e militarizada. O império que Afonso de Albuquerque ajudou a desenhar no início do século XVI não era um império de território, era um império de rotas e de nós. Goa, Malaca, Diu, Mascate, Sofala e a própria Ormuz, tomada em 1515 precisamente porque quem a controlava........

© Jornal Económico