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Irão, aqui e agora

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21.01.2026

Sob o apagão digital que cobre e permite a desvergonha do que está a passar-se no Irão, vai-se sabendo, tarde, mas com verdade, os contornos do que está a acontecer. Começou por se falar em três mil vítimas mortais – um número já assombroso. Pouco depois, entidades oficiais iranianas, citadas pela Reuters, apontavam para cinco mil mortes. O ayatollah Khamenei, que em protestos anteriores nunca admitira números, falou desta vez em “vários milhares” e chegou mesmo a reconhecer que “alguns [foram mortos] de forma inumana, selvagem”. No “Sunday Times” fala-se de 16.500 pessoas mortas e 330 mil feridas. São os próprios meios de comunicação estatais a reconhecer que, na sua maioria, os manifestantes eram jovens iranianos, muitos na faixa dos 20 anos.

Na Al Jazeera é citado Abbas Masjedi Arani, chefe da autoridade médica forense do Irão, a dizer “que muitas das vítimas foram baleadas à queima-roupa no peito ou na cabeça, ou a partir de telhados, enquanto outras foram mortas à facada”. Sabe-se que milícias xiitas oriundas do Iraque se juntaram à perseguição dos manifestantes; fala-se de cerca de 800 homens armados.

A escuridão digital deixou os manifestantes como cegos diante da violência cega que os atingia. E para o mundo, que também via menos, tornou difícil medir e validar toda a informação sobre o que aconteceu ao longo de várias semanas de repressão dos protestos civis, sobretudo nos dias 8 e 9 de janeiro, em que o massacre de manifestantes se deu de forma obscenamente massiva. Sim, a chacina aconteceu, não há dúvida, apesar das luzes do online desligadas.

O que chegou às redes sociais, apesar do apagão e da falta de confirmação por entidades oficiais, é tremendamente perturbador. São vídeos de grandes espaços cobertos – não se percebe se armazéns industriais – a servirem de depósito de corpos, morgues improvisadas. Há testemunhos de manifestantes aprisionados que foram obrigados a despir-se, expostos ao frio, e injetados com substâncias que não conhecem. Uma única clínica de oftalmologia em Teerão (Noor Eye Hospital) fez saber que, em poucos dias, deram entrada nas suas urgências seis mil doentes com lesões oculares.

No “El País” lê-se aquilo que já circulava nas redes sociais:........

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