Começar por dizer que…
O … o Presidente teve coragem e visão. Dizer que... Sempre dizer que… Portanto, começar por agradecer… e dizer que… irrita e não funciona. Porque dizer algo exige sujeito. E o sujeito pesa. O sujeito compromete. Portanto, dizer que… faz com que o verbo fique ali. Suspenso. Pendurado numa gramática estranha. Dizer que. Referir que. Depois logo se vê o que se acrescenta. Há cada vez mais discursos a começar no infinitivo. Uma moda e uma bengala. Um ar de solenidade para esconder o vazio do discurso. O infinitivo. Neutro. Dizer que é um prazer. Ou um gosto. Mas ninguém diz: — eu digo. Ou nós dizemos. Uma liturgia do vazio. Mas sem dúvidas. Categórica. Prenhe de resiliência, essa supercola semântica. Falta dinheiro? Resiliência. Choveu? Resiliência. O governo caiu? Resiliência. E eu cada vez tenho mais dúvidas sobre isto de escrever. O que, convenhamos, já é bastante pretensioso. Porque dizer que se escreve parece sempre insinuar que se é escritor. E não. Não sou escritor. Sou apenas um tipo que escreve. Tipo. Mesmo tipo. Porque hoje tudo é tipo. Estava tipo a pensar… Foi tipo incrível… tipo, percebes? Tipo uma muleta verbal. Tipo uma vírgula oral. Tipo nada. Como há tipos que assobiam. Ou tipos que dizem: bom dia de manhã. Importante esclarecer. Porque bom dia à noite seria estranho. Escrevo, releio, uma e outra vez, e duvido. Escrevo, logo duvido. Das vírgulas, por exemplo. Também das concordâncias. Num texto de quatro mil caracteres usei nove “mas” — que é uma conjunção coordenativa adversativa. Nove “mas”. Vírgula, mas. Vírgula, mas. Só gosto de repetições quando são intencionais. Anáforas. Repetições com propósito. Escrevo. Releio. Corto. Desbasto. Ou aparo. Tiro gordura ao texto como a um bife. Até ficar uma amostra de bife. Às vezes funciona. Outras não. É a parte difícil de escrever, disse Stephen King. Também é a melhor parte. Gosto de frases curtas. Ou longas. Imaginando que a respiração é feita onde eu a quero. Consulto dicionários. O dos significados. O dos sinónimos. Até o da paciência. Há expressões que me dão comichão. Uma espécie de sarna semântica. Não tem de ser um “hádem” destesoante, que é uma palavra inexistente. Pode ser um “faz-me sentido”. Faz-me. Sentido. Como se o sentido fosse uma torradeira. Liga-se. Faz-se. Pronto. Não entro nos estrangeirismos. Não entro hoje naquilo que é uma noite escura. Naquilo que é o quê? Naquilo que é encher chouriços. Naquilo que é coisa nenhuma. No fim do dia, é isso. Toma-se à letra o “at the end of the day” e nem reparamos que podia bem ser “no fim de contas”. No fim do dia o quê? No fim do dia conclui-se. No fim do dia realiza-se. Sim. Realiza-se. Porque agora também se diz: realizei que. Realizou. Parabéns. Realizou o quê? Uma ponte? Uma barragem? Não. Realizou que percebeu. Isto. Depois de ver algo. Ou ler. Num livro ou num meme na internet: “Isto!” ou “é tão isto!” Mas isto o quê? Isto texto? Isto ideia? Isto sandes? E às vezes isto é bom. Às vezes isto é TOP. Assim. Em maiúsculas. Como se a língua portuguesa tivesse entrado numa campanha publicitária. É o que é. Expressão que nada diz, mas encerra a discussão. Banalidade. Porque é o que é. Não é o que não é. Porque gostos não se discutem. Coisa mesmo tuga. Não podia ser mais vago. Mas diz-se. E fica dito. E se alguém pergunta porquê: — Mano… é mesmo tuga. Mano. Sempre mano. A linguagem moderna descobriu o parentesco universal. Somos todos manos. Mesmo quando não somos. Sem problema, desde que se saia da zona de conforto. Toda a gente quer sair da zona de conforto. Estava ali, mas vim para aqui. Devia ter ficado lá, porque agora estou melhor. Mais confortável. Só me falta uma jola. Uma palavra que aparece sempre em forma de assim bonacheirona. — Vamos ali beber uma jola. E de jola em jola constrói-se uma civilização a correr atrás do prejuízo. Expressão magnífica. Porque implica movimento. Corre-se. Corre-se atrás. E o prejuízo continua sempre um pouco mais à frente. Como se fosse uma engenharia da redundância. Por assim dizer. Uma espécie de elo de ligação. Porque haverá elos que não ligam. Mas diz-se. E repete-se. E ninguém morre por causa disso. Por assim dizer. E entretanto o discurso torna-se isto: bom dia de manhã, dizer que, naquilo que é a deserção face aos ideais anteriormente elogiados, alguém realizou que, no fim do dia, a conversa inteira podia resumir-se a um simples isto — que é TOP. E pronto, é o que é, porque gostos não se discutem, por assim dizer, e temos de ser tipo resilientes e fora-da-caixa, saindo da zona de conforto, correndo atrás do prejuízo e dando o nosso melhor. Terminar por dizer que o melhor é beber uma jola, espalhar um pouco de gratiluz e despedirmo-nos com abreijos. Prontos. Isto.
