Profundos mistérios do lixo
Num dia um, no outro dia outro, começámos a vê-los de luvas azuis a enfiar o braço num caixote de lixo atado aos postes, ou num cilindro no passeio, ou com o corpo mergulhado num enorme contentor, as pernas cá em cima pedalando pelo equilíbrio, e catando nesse fundo de restos fermentados, como pepitas valiosas, as garrafas de plástico bebidas, as latas vazias.
Aí está uma nova profissão improvisada, ou melhor, um reacendimento dos exércitos do lixo reciclável das cidades, houve em tempos os recolhedores de cartão e resmas de jornal velho, agora é a luta pelos despojos de dez cêntimos aqui, dez cêntimos ali, o talão de reembolso juntando euros, diz a Câmara de Lisboa que se tornou um problema de saúde pública, como se as montanhas de lixo nos passeios não fossem já, antes do sistema Volta, uma constante recente da capital portuguesa. Pus-me a pensar em coisas - é um dos meus trabalhos - e lembrei-me das capacidades dramáticas do lixo, onde pode caber tudo, até a história trágica de Rosa. Vi-a há anos no tribunal. Entre uma barraca e outra barraca, em colchões e nas tábuas, Rosa fez seis filhos. Não, foram sete.
- Consegue........
