Um país que se repete
Há uma indisfarçável vocação de Portugal para repetir erros estruturais, sobretudo quando se colocam expetativas demasiado elevadas sobre a destreza do Estado para resolver problemas. Vimos o que aconteceu em Pedrógão Grande (no antes, no durante e no depois) e estamos a assistir ao remake dessa fita atabalhoada na gestão dos efeitos da tempestade Kristin. Só os protagonistas mudaram. O Estado não é amigo dos cidadãos quando eles mais precisam porque, no essencial, não confia neles. O contrário também é verdade. A teia burocrática em que estamos permanentemente enredados esconde, no essencial, uma tremenda falta de maturidade cívica do portuguesinho, por natureza desconfiado e autodestrutivo.
O passa-culpas entre o ministro Castro Almeida (que acusou as autarquias de não estarem a ser diligentes no apoio financeiro às populações afetadas) e os autarcas (que ripostaram com indignação, devolvendo as críticas) é a tradução dessa incapacidade coletiva de injetarmos pragmatismo em benefício do bem comum, sobretudo em domínios onde há um consenso nacional generalizado. O exemplo de Pedrógão deixou-nos lições sobre como em todas as desgraças há abutres que se aproveitam da bondade (e fragilidade) do sistema para se lambuzarem. Esse traço cultural não se apaga por decreto nem à força de requerimentos forrados a alíneas e exceções. O apoio público deve ser endossado em respeito pelas regras e pela lei, mas se continuarmos a erguer muros só acabaremos a prejudicar todos e não a beneficiar (potencialmente) alguns. O dinheiro tem de chegar rapidamente às pessoas e às empresas. O tempo é das formigas silenciosas, não das cigarras ululantes.
