Do tiro nos EUA aos discursos de ódio
Donald Trump parece correr permanentemente perigo de vida. Embora o detido nem tenha chegado perto do presidente durante o jantar anual da Associação de Correspondentes da Casa Branca, podemos conceder que o líder da superpotência já sofreu três atentados. No entanto, só num dos episódios é que ficou com uma das orelhas a "arder". Seja como for, é legítimo refletir um pouco sobre o que se passa em algumas sociedades mais prósperas. Matar é uma resposta proporcional a uma medida política, por muito discutível que seja? Evidentemente que não. Mas os sinais de radicalização são indesmentíveis.
A política de identidade, uma ferramenta de representação de minorias, foi, na realidade, cooptada por dois espetros das sociedades ocidentais, criando dois blocos monolíticos. Segundo algumas análises do "The New York Times", o resultado é a desumanização do adversário: o oponente já não é alguém com quem se discorda sobre a taxa de impostos ou sobre a intervenção no Irão, mas uma ameaça direta à existência e aos valores fundamentais do "meu" grupo. Quando a política se torna uma questão de sobrevivência, o compromisso democrático - que implica tolerância e troca de argumentos - é dispensável.
O crescimento de atitudes machistas, misóginas e racistas entre os jovens - manchete do JN na edição de domingo - é a face visível de um "anticorpo cultural" contra um conceito de ativismo radical protagonizado por minorias (o movimento LGBTI+ é um exemplo) que defendem, legitimamente, uma mudança de mentalidades. Nenhuma das partes tem a razão toda, mas o certo é que uma bala nos EUA pode conter um significado mais denso do que possa parecer.
