Afinal, vivemos em Portugal ou na Lisboalândia?
Há em Portugal uma tradição política verdadeiramente admirável. Sobrevive a governos, maiorias, crises, reformas administrativas e até à inteligência artificial: Lisboa continua a decidir demasiado pelo resto do país.
Não é necessariamente por maldade. É pior: é por hábito.
Portugal descobriu há alguns anos a descentralização. Descobriu-a, pelo menos, em discursos, cerimónias e documentos oficiais.
Mas, na prática, fizemos uma coisa curiosa: transferimos competências para os municípios, mas mantivemos em Lisboa a autorização, o parecer, a validação, a supervisão, o procedimento e, quando possível, o dinheiro.
É uma espécie de descentralização à portuguesa: "É vosso para fazer, mas primeiro perguntem-nos se podem."
E, se possível, preencham o formulário certo.
O problema é que esta cultura administrativa tem consequências muito concretas.
Um Estado lento prejudica sobretudo quem tem menos capacidade para esperar. Uma grande empresa consegue contratar consultores, advogados e especialistas para acompanhar um processo........
