A liberdade desenhada na cidade
O 25 de Abril não foi apenas a queda de um regime, foi a abertura das cidades. Até então, o espaço urbano era rígido, vigiado, contido.
A arquitetura servia o poder: monumental, disciplinada, fechada sobre si mesma, muitas vezes ancorada numa ideia de "Casa Portuguesa" que evocava tradição, lar, mas também controlo, e que tentava impor-se à Arte-Nova, num diálogo apertado e de luta com o modernismo. As ruas eram de passagem, não de encontro, e o espaço público, mais cenário do que pertença.
Abril trouxe mudança. As cidades deram palco à voz dos cidadãos, nascem as políticas de habitação, cooperativas, bairros pensados para viver e não apenas para dormir. O estilo contemporâneo rasga fachadas, amplia varandas, cria espaços que respiram, deixando de ser um instrumento de imposição para se tornar linguagem de liberdade, socialmente comprometida, mais próxima das pessoas. Aliás, arquitetura é história do tempo.
As ruas deixaram de controlar para acolher e, as mulheres ocupam o espaço público, os idosos encontraram tempo e banco para descansar, as crianças ganham caminho para a escola e, as pessoas com deficiência começam, ainda que lentamente, a ser consideradas no desenho da cidade.
Estas transformações contam a história do desenho da cidade e o confronto com as diversas tensões sociais, culturais e políticas. Hoje continuamos o caminho onde a democracia ainda se constrói todos os dias, entre avanços e recuos.
Por isso, mais do que celebrar Abril, é preciso fazer da arquitetura e do urbanismo instrumentos vivos de inclusão. Garantir que cada rua, cada praça, cada edifício prolongue abril no direito de expressão e no ato de liberdade de cada um.
