O chip do consentimento
A campanha começou como tantas outras promessas tecnológicas: discreta, sedutora, envolta na linguagem da eficiência emocional. O "RelationChip" surgia como solução para a ansiedade amorosa contemporânea - dois chips, um namoro, zero segredos, uma tecnologia capaz de eliminar segredos entre casais que prometia transparência absoluta: localização permanente, acesso a conversas, vigilância mútua em nome da confiança. Quando a APAV revelou que tudo não passava de uma encenação, não era a tecnologia que assustava, era o facto de tantos reconhecerem naquele controlo absoluto algo familiar, quase aceitável. A campanha "Muda o Chip" não inventou uma distopia. Limitou-se a amplificar uma realidade silenciosa que os números confirmam: mais de mil vítimas apoiadas em contexto de namoro recente e um crescimento expressivo da violência mesmo após a rutura. O amor, afinal, continua demasiadas vezes confundido com vigilância na ideia perigosa de que vigiar é amar e possuir é cuidar.
A recente aprovação pelo Parlamento Europeu do projeto-piloto "Vamos falar sobre consentimento", a partir de uma ideia do eurodeputado Paulo Nascimento Cabral, é um importante sinal que responde a um alarme. Quando é necessário ensinar consentimento como quem ensina alfabetização básica, percebemos que algo falhou. O consentimento não é um detalhe moral, é a fronteira mínima da dignidade humana. Não está em causa apenas a violência explícita, mas o clima que a antecede: a exigência de acesso total, a suspeita permanente, a ideia de que amar implica renunciar à própria autonomia. Os dados são claros e inquietantes. Segundo o Instituto Europeu para a Igualdade de Género, uma percentagem significativa de jovens aceita agressões físicas como consequência "compreensível" de conflitos amorosos, enquanto 47% das jovens se culpabilizam pela divulgação não consentida de imagens íntimas. Estamos perante uma erosão cultural profunda: a internalização da culpa pela própria vítima.
Está na televisão generalista, está nas redes sociais, está nos serviços de "streaming". Parte da degradação nasce num ecossistema digital onde o algoritmo recompensa o excesso, a exposição e a ideia de domínio. Mas seria ingénuo culpar apenas as redes sociais. O que se observa é o ressurgimento de uma masculinidade ansiosa, defensiva, que reage às conquistas femininas com nostalgia autoritária. Um conservadorismo emocional que tenta reescrever o papel da mulher não pela lei, mas pela pressão íntima, pelo ciúme romantizado, pela exigência de acesso total, pela normalização do controlo. Talvez por isso a campanha da APAV tenha sido tão perturbadora: o futuro não precisa de chips implantados, quando o controlo já existe. O verdadeiro desafio é reaprender a liberdade, antes que a violência deixe de ser excepção e passe a ser entendida, perigosamente, como normalidade afetiva.
*O autor escreve segundo a antiga ortografia
