Menos vento nas trincheiras
Há um momento, em política, em que as estatísticas deixam de ser apenas números e passam a ser uma espécie de literatura cruel. Nas mais recentes eleições legislativas, escreveu-se uma dessas páginas, com o Bloco de Esquerda a ficar reduzido a um deputado e 1,99% dos votos, enquanto o PCP conseguiu três deputados e 2,91%. Somados, perderam dezenas de milhares de votos. Juntos, mal ultrapassam os cinco por cento do eleitorado - um número que, há não muitos anos, seria impensável para partidos que moldaram parte da identidade política da Esquerda portuguesa. Sem que os seus protagonistas pareçam capazes de decidir se constroem um dique ou se continuam, simplesmente, a discutir a direção do vento nas trincheiras.
As divergências entre comunistas e bloquistas foram parte da paisagem política e podem acabar por ficar na história como uma nota de rodapé. O PCP, herdeiro de uma tradição orgânica e disciplinada, desconfiou sempre do experimentalismo do Bloco; o Bloco, nascido da confluência de várias correntes da esquerda radical, olhou muitas vezes para o PCP como um guardião austero do passado. Divergiram sobre a Europa, sobre estratégias parlamentares, sobre a própria política de alianças. Isto, enquanto marchavam lado a lado em quase todas as batalhas sociais do país.
A recente reunião entre dirigentes dos dois partidos para procurar convergências nas lutas sociais - do trabalho à habitação, do custo de vida ao SNS - pode ser lida como um pequeno sinal de lucidez. Não porque resolva tudo, mas porque reconhece o essencial: separados, cada um destes partidos continuará a encolher no mapa político. Juntos, poderiam ensaiar um desenho de alternativa à esquerda do PS. Se a Esquerda transformadora quiser voltar a falar para o país real, talvez tenha de aceitar a evidência: a soma das diferenças é mais forte do que a pureza solitária.
Este novo ciclo político abre-se com outra figura a observar o sistema desde Belém. António José Seguro, eleito com apoios vindos de um arco político vasto, representa uma tradição de centro-esquerda moderada, institucionalista, quase pedagógica. O seu desafio será precisamente provar que a moderação não significa tibieza. Terá pela frente testes claros. A sua posição perante a reforma laboral, a defesa do SNS, o modo como o país se posiciona num Mundo cada vez mais polarizado e o desafio mais profundo: lembrar ao país que a estabilidade democrática não nasce apenas da engenharia institucional, mas da qualidade concreta da vida das pessoas. E talvez seja aí que as histórias se cruzem. Se a Esquerda quiser voltar a pesar na balança no contexto de um PS centrista, terá de reaprender que a diferença entre a irrelevância e a influência está não na valorização das divergências que nascem nas trincheiras dos vizinhos, mas na coragem de encontrar um caminho comum.
