Ontem, hoje e amanhã
O fascismo nasceu em Itália, pela mão de Mussolini em 1919, de camisa preta representado por um feixe romano na lapela. "Tudo no Estado, nada contra o Estado, nada fora do Estado". Hoje, tanto serve para julgar o vizinho do condomínio, como para criticar políticos que falam em fronteiras. Em Portugal, desde o tempo do Estado Novo até aos dias de hoje, a palavra fascismo foi sendo utilizada mais ou menos como a massa de vidraceiro, dá para tudo. Durante o Verão Quente, em 1975, quem não vestisse a camisola da Esquerda era fascista. Portugal vivia dividido entre o radicalismo panfletário das doutrinas socialistas e comunistas que ocuparam terras e nacionalizaram o país e uma visão europeia social-democrata e centro-democrata cristã que fazia tudo para se distinguir da Direita reacionária, tacanha e bafienta que Salazar cultivou e preservou em formol até mesmo depois da sua morte. À conta de tanto uso, o vocábulo acabou por ultrapassar em muito o seu significado original. Passou de regime histórico a adjetivo moral, de uma doutrina com milícias e câmaras de gás para discursos contra a imigração. A sua vulgarização tirou-lhe força, porque quando tudo é fascismo, nada é fascismo. Mas há quem queira devolver-lhe o peso original. Quando André Ventura subiu ao palco no IV Congresso do Chega e resgatou a famosa tríade do Estado Novo, "Deus, pátria, família", à qual acrescentou trabalho para lhe dar polimento e puxar pela meritocracia, na qual tanto apregoa acreditar, quis reavivar a nostalgia de todos aqueles que dizem que antigamente é que era bom.
Antigamente, no início da década de 70, 31% das mulheres e 19,7% dos homens não sabiam ler nem escrever. Morriam 55,5 crianças por cada mil nascimentos. Não existia SNS. Sete em cada dez casas não possuíam duche ou banheira e mais de metade não tinha água canalizada. Um terço das habitações nem sequer tinha eletricidade. Ainda me lembro de apanhar o autocarro 33 para ir para o liceu e ver a Segunda Circular em Lisboa com barracas dos dois lados, desde Benfica até depois do Aeroporto da Portela. Rebanhos de ovelhas atravessavam a Praça de Espanha e era comum verem-se carroças nas vias principais da capital.
Cinquenta e dois anos depois da Revolução de Abril, ganhámos direitos, dignidade, longevidade, águas correntes quentes e frias, saúde e educação. E também ganhámos liberdade. Ventura tem tanto direito de citar Salazar como eu de lembrar que no tempo de Salazar quem citasse Mário Soares corria o risco de passar uma temporada na prisão de Caxias. O problema é que a mentalidade de um país não se renova à velocidade com que se substitui um sistema de canalização. E a mentalidade portuguesa continua a olhar para o Estado como um pai severo a quem tudo se pede: emprego, casa, creche, subsídio. Sempre que um setor entra em crise, estendem-se as mãos. Crescemos em PIB, mas não em responsabilidade. Sonhamos com o Estado-providência e desejamos que a nossa entidade patronal seja também a paternal, com mimos e desvelos que incluem a possibilidade de amamentação até aos sete anos.
Quisemos acreditar que o fascismo opressor morreu no cano de uma espingarda decorada com um cravo, mas cultivamos o paternalismo estatal. Mudámos de regime, mas ainda não mudámos totalmente de mentalidade. E quando a democracia dá trabalho, chamamos o passado e damos-lhe um banho de loja para parecer que pode funcionar no futuro. Contudo, convém nunca esquecer que os regimes fascistas eram totalitários: prendiam, torturavam, deportavam e matavam. Não sejamos burros a ponto de desejar para o futuro o que nos aplacou no passado. Citando Churchill, a democracia é a pior forma de governo, à exceção de todas as outras. É verdade que a democracia dá muito trabalho, mas não podemos voltar atrás.
