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Sala de aula: o lugar que o professor arruma e o mundo desarruma

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22.04.2026

Há um lugar onde ainda se tenta pôr ordem no mundo: a sala de aula. Um espaço pequeno, tantas vezes esquecido, onde se procura ensinar o que lá fora parece perder-se: a escuta, o respeito, a verdade dita com cuidado. E é nesse lugar, quase invisível, que o professor resiste.

O professor entra todos os dias com as mãos cheias de palavras e de esperança. Não apenas para ensinar conteúdos, mas para moldar consciências. Para que os jovens, ainda em construção, aprendam a ser mais do que o mundo lhes mostra, porque serão eles, um dia, a escrever o futuro.

Mas esse mundo insiste em desarrumar tudo. Entra nas salas de aula com imagens de guerras, de decisões distantes de líderes como Putin ou Netanyahu, para quem a vida parece uma variável secundária, essa vida que o professor enaltece como um bem superior e que, por isso, deveria ser respeitada. É aí, então, que o professor, que fala de paz, sente o peso de ensinar contra o estrondo barulhento das armas.

A sala mantém-se desarrumada e barulhenta, porque nela se sente também a poluição sonora das palavras soltas, rápidas, impensadas, que apregoam a violência, de Donald Trump, que se designa por "Senhor do Mundo", mas que nada conhece sobre o rigor da palavra dada, que nada sabe sobre o valor da consciência cívica, que negligencia o respeito pela liberdade do próximo. É, então, na sala de aula, que as palavras do professor batem contra as paredes e se desfazem em pó.

Até a televisão desarruma e destrói tudo o que o professor ensina, pois apregoa programas onde o grito e o insulto se vestem de espetáculo. E aquilo que se corrige na sala de aula regressa, ampliado, como modelo, batendo contra as paredes, nas primeiras páginas dos jornais, das revistas e das redes sociais.

E há ainda um outro ruído. Este, silencioso, invade o espaço escolar, pois há pais, que, talvez cansados de lutar contra esta sociedade demolidora, desistem de educar os próprios filhos, delegando no professor essa tarefa, ou, mais barulhentos, desculpam-nos da desarrumação que provocam, porque nem sabem o que é uma alma arrumada.

No final, permanece uma realidade que já não se pode ignorar: professores sobrecarregados, cansados de fazer, de falar, de orientar, de ouvir, de arrumar. Cansados de arrumar papéis que vão para o lixo, de ensinar o que ninguém quer ouvir, de sustentar o que os outros deixam cair, de mostrar caminhos para onde a sociedade atira lixo, de limpar almas, de arrumar ideias, de ter a esperança que já ninguém tem.

E, no meio de tudo, ainda lhes sobra tempo para pensar, todos os dias, mesmo ao fim de semana, em estratégias, em atividades, em materiais que possam fazer a diferença para que a sala de aula seja um espaço arrumado, de crescimento interior e de fé na Humanidade.


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