menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Pequena anatomia do alívio ibérico comparado

14 0
monday

Há governos que administram expectativas como quem regula a luz de presença e há governos que mexem no interruptor geral. A diferença parece teórica até ao momento em que a conta da eletricidade chega com vocação literária para o terror. Entram então Pedro Sánchez e Luís Montenegro, dois líderes sob o mesmo garrote europeu, mas com reflexos que espatifam a fotografia.

Sánchez, a governar uma Espanha de equilíbrio partidário precário que lhe põe o pé esquerdo em tensão, abriu a janela do quarto saturado. Cortou o IVA da eletricidade de 21% para 5% em momentos críticos, aplicou o "tope ibérico" ao gás, subsidiou combustíveis a cindir o IVA de 21% para 10%, manteve o IVA zero em alimentação básica e subsidia passes de transporte com descontos que chegam a 65% para famílias vulneráveis. "No vamos a dejar a nadie atrás", disse, e a frase teve tradução doméstica: a fatura elétrica desce de 80 para 60€; depósitos mensais caem de 150 para 110€ com o apoio de 0,20 €/litro; transportes que, durante meses, custaram zero. Não é milagre, é oxigénio.

Montenegro prefere a liturgia da prudência: intervenções limitadas, apoios seletivos, recusa cortes amplos no IVA - nada desce, nem a luz mesmo que esteja apagada -, põe um penso rápido numa hemorragia lenta. "Responsabilidade orçamental", repete-se em Lisboa como um mantra que paga o futuro a debitar o presente, como quem veste um colete de forças e chama-lhe moda.

A questão real nunca foi qual é o estilo mais prudente - a prudência é um luxo de quem já jantou. Espanha escolheu respirar; Portugal escolheu esperar. E a diferença, neste pedaço de mapa onde partilhamos sol, história e aterradores telejornais, é que os espanhóis vivem melhor, vivem muito mais.

Na política externa - isto é, no orgulho ou na vergonha que temos daquilo que os outros dizem de nós -, o contraste é didático. Sánchez é o sujeito que quer ser o verbo principal, arrisca, confronta, fala alto do genocídio israelita em Gaza, reconhece a Palestina, diz que Trump é uma roleta russa - e dá-lhe, embrulhado em veludo, o insulto mais elaborado da década: a Espanha não aplaudirá quem "incendeia o Mundo só porque aparece com um balde de água". E Montenegro? Montenegro cultiva a mística da inércia estratégica, alinha, preserva, acocora-se com "equilíbrio e moderação" e gere com especial afinco o nosso nevoeiro administrativo.

E assim ficamos, entre a janela aberta e a carteira fechada. Entre o ar que entra e o cálculo que fica. A questão final não é técnica nem ideológica. É doméstica: Espanha respira. Portugal acha que poupa quando está a dormir. E talvez a verdade não seja só económica, mas literária: a que país pertence um governo que poupa aos cidadãos dois euros por mês e chama a isso política energética?​​ Pertence ao país do realismo sujo onde o Estado é o narrador não fiável que nos convence de que o sufoco é uma forma poupada de oxigénio.


© Jornal de Notícias