A tragédia da tragédia
Há sempre dois momentos numa tragédia natural em Portugal. O primeiro é o da própria tragédia. O segundo, bastante mais criativo, é o da imaginação nacional a trabalhar a todo o vapor.
Mal o vento leva telhados, a chuva corta estradas ou o fogo resolve fazer limpeza geral, entra em cena o verdadeiro talento lusitano: o oportunismo de alto rendimento. Perante a pressão pública, o Governo faz o que sabe fazer melhor em momentos de aflição: promete. Rapidez, simplificação e dinheiro. "Mandem fotos e tratamos de tudo".
E é aqui que o país se supera. De repente, cada pedra, cada árvore, cada chapa esquecida no quintal renasce com dignidade suficiente para justificar uma indemnização. Se a natureza não fez o serviço completo, a imagem cria o estrago necessário.
Depois, entra a engenharia fiscal doméstica. Uma casa, dois contribuintes, duas candidaturas. Se houver tios, primos e um gato com NIF, melhor ainda. É o milagre da multiplicação dos pães em versão moderna.
Mas nada bate a mítica relação de amor-ódio com o Estado. Aquela construção clandestina, erguida em zona de risco, sem licença, sem taxas, à margem da lei... subitamente transforma-se numa respeitável "habitação afetada". Por vezes, a garagem até vira moradia. É quase poético: primeiro ignora-se o Estado, depois cobra-se ao Estado.
É o empreendedorismo em estado puro: transformar uma tragédia coletiva numa oportunidade individual. Poder-se ia até derivar uma máxima da gestão moderna, com patente nacional: ter sempre um plano de negócios preparado, daqueles que valem para a chuva de inverno ou para os fogos de verão.
