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Mustafa. Não matarás

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19.03.2026

Demorei-me na imagem, pelo choque e pela indecência. As imagens da guerra são sempre brutas, impregnadas de sofrimento, tantas vezes de olhares vazios, mas aqueles não eram assim. A imprescritível dor de Mustafa sente-se nas lágrimas tão mas tão gordas, presas ali à borda dos olhos, prestes a cair. São os olhos de quem perdeu o mundo, de quem assistiu ao horror, de quem perdeu todo o amor. Mustafa tem oito anos, olhos no chão, vestígios de sangue de um ferimento que se estende pelo nariz. Mataram-lhe a família a tiro. Pai, mãe, dois irmãos, de cinco e sete anos, fuzilados dentro do carro em Tammum, na Cisjordânia, depois de um passeio. Escapou Mustafa e o irmão de 11 anos, feridos pelos estilhaços dos disparos. Isto não são narrativas, não são lados de ver a história. São execuções.

O assassinato de inocentes não pode ser branqueado com ideologia. Quem mata assim tem de ser levado à justiça. A impunidade não pode ser justificada por quem atirou primeiro a pedra. Não se fuzila uma família, não se matam inocentes, não se deita o respeito pelos direitos humanos ao lixo. Seja qual for a parte do mundo em que aconteça, o terrorismo tem de ser condenado. Há que prestar contas. As atrocidades, sejam na Cisjordânia, na Nigéria, no Sudão, no Congo, não podem ser ignoradas. Não chegamos tão longe para ficar tão atrás no mais fundamental que há.

Há uns dias, durante uma entrevista, o responsável da Unicef no Líbano, Marcoluigi Corsi, repetiu-me várias vezes que o objetivo da associação que defende as crianças nos cenários mais horríveis era "parar o sofrimento". "Temos de parar o sofrimento", apelou. A fotografia de Mustafa veio uns dias depois, fazendo-me pensar quão longo é esse caminho e quanto tem de ser feito para que não se justifique a violência de fuzilar uma família com crianças.


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