Digitalizar o território e territorializar o digital
A interrogação nunca fez tanto sentido como agora, a saber, a revolução tecnológica e digital vai acentuar ainda mais a litoralização do país e reforçar as aglomerações já existentes, ou, pelo contrário, vai distribuir infraestruturas e equipamentos, atrair população e atividades económicas para o interior do país e, dessa forma, inverter a desertificação e reforçar a equidade e a coesão territoriais? Ou, formulado de outro modo, vamos digitalizar o território e monitorizá-lo à distância numa lógica maioritariamente ex situ ou vamos territorializar o digital com a criação de infraestruturas e equipamentos que atraiam os jovens empresários e os talentos criativos para as nossas redes de vilas e cidades de acordo com uma abordagem maioritariamente in situ que faça da ocupação equilibrada e harmoniosa do território uma espécie de imperativo categórico?
Não há, claramente, uma resposta fácil para a pergunta assim formulada. Por várias razões críticas, estruturais e conjunturais, que eu aqui relembro mais uma vez.
1. Em primeiro lugar, a década 2020-2030, na Europa e no quadro da União Europeia, é um período deveras excecional. Desde logo, os impactos severos das alterações climáticos com consequências nas metas e critérios de sustentabilidade. Depois uma guerra de elevado risco geopolítico e securitário na fronteira leste da Europa entre a Ucrânia e a Rússia. Em seguida, uma crise demográfica e migratória com impacto na polarização do espetro político-partidário. Depois, o colapso do multilateralismo da ordem liberal e o regresso das áreas de influência e das políticas de potência. Por fim, uma inquietação que cresce todos os dias nos mercados de trabalho à medida que a digitalização, a automação e a inteligência artificial vão substituindo os processos industriais mais convencionais, assim como os processos de rotina burocrática e administrativa mais usuais, já para não referir algumas funções tecnicamente mais exigentes que caiem agora na alçada dos assistentes inteligentes e da IA.
2. Em segundo lugar, estamos a assistir a mudanças paradigmáticas de longo alcance, com um atrito elevado e um risco de colisão iminente que as políticas públicas convencionais de ciclo curto não resolvem. Eis algumas propriedades emergentes dessa transformação paradigmática: ciclos de duração muito variável para cada transição, muitos efeitos
assimétricos sobre os territórios, muitos danos colaterais e uma gestão do risco altamente atribulada, custos de contexto cuja severidade ainda mal imaginamos, uma governação multiníveis extraordinariamente exigente e politicamente muito delicada, um mercado laboral em permanente agitação e uma iliteracia digital que cria exclusão social entre os mais idosos, uma guerra........
