menu_open Columnists
We use cookies to provide some features and experiences in QOSHE

More information  .  Close

Dialogar, planear, simplificar: o essencial para o país avançar

13 0
24.04.2026

Num momento em que o país ultrapassou um ciclo eleitoral completo (e até mais do que completo!), importa recentrar o debate em três dinâmicas simples, mas profundamente transformadoras: dialogar, planear e simplificar. Bem sei que não falo de propostas disruptivas nem da reinvenção de modelos, mas antes de recuperar princípios elementares que, quando aplicados com consistência, têm um impacto estrutural na efetividade de políticas públicas e na coesão social.

Dialogar é o primeiro pilar. Um país que dialoga é um país que se ouve a si próprio, que reconhece a diversidade de perspetivas como uma riqueza e não como um obstáculo. Estar aberto ao diálogo não é sinónimo de fragilidade política, mas sim de maturidade democrática. Num contexto de crescente fragmentação, a capacidade de construir consensos alargados - entre partidos, instituições, parceiros sociais e cidadãos - torna-se essencial para garantir estabilidade e previsibilidade. Importa, aliás, sublinhar que a procura de compromissos em nada belisca a autonomia político-partidária. Pelo contrário, a disputa entre diferentes visões é não só legítima como indispensável: é dessa tensão democrática que nascem melhores políticas públicas. Por isso foi tão saudável e inteligente que nas últimas semanas tivesse sido reaberto o diálogo sobre o código do trabalho e houvesse capacidade dos partidos para um entendimento sobre os órgãos externos do Parlamento.

Planear é o segundo eixo. Não podemos resignarmo-nos a ser o país que apenas se sai quando há necessidade (sim, é um eufemismo para o desenrascanço). Um país que planeia é um país que antecipa, que define prioridades claras e que se prepara para diferentes cenários. Planeamento estratégico significa olhar para além das urgências mediáticas e investir em políticas públicas sustentáveis nas áreas críticas, tais como educação, saúde, habitação, demografia, transição energética ou coesão territorial. Significa também articular melhor os vários níveis de decisão e garantir que os recursos são alocados com base em evidência e objetivos de longo prazo. É nesta perspetiva que elaborar relatório síntese de diagnóstico e ação (que não poderão ser confundidos com atas ou documentos para "Bruxelas" ver) sobre acontecimentos recentes ou promover reunião com especialistas sobre cenários particularmente desafiantes ajuda a preparar o futuro e a envolver os cidadãos.

Simplificar é o terceiro motor. Num país onde a complexidade administrativa continua a ser um entrave ao desenvolvimento, a simplificação deve ser assumida como uma

prioridade política central. Reduzir burocracias, tornar processos mais transparentes e rápidos, eliminar redundâncias - por exemplo em áreas como licenciamentos, subsídios, contratação pública ou obrigações declarativas - não é apenas uma questão de eficiência, mas de justiça e competitividade. Há que ir ao terreno e fazer o teste da realidade às intenções proclamadas ou medidas aprovadas porque se exige que se encurte o prazo de implementação das políticas e se aproveite a energia da sociedade civil.

Importa sublinhar que, apesar destas três ações serem básicas, a sua defesa não é naif nem meramente programática. Pelo contrário, exigem coragem política, cooperação institucional e uma mudança de atitude consistente. Com os mesmos atores, é possível alterar as circunstâncias, transformar fatalismos em oportunidades e recentrar a ação no que é essencial.

Dialogar, planear e simplificar são, por isso, dinâmicas interdependentes. O diálogo alimenta melhores planos; o planeamento orienta a simplificação; a simplificação reforça a confiança necessária ao diálogo, ao mesmo tempo que a responsabilização assegura que tudo isto se traduz em resultados concretos.

Quando passam 50 anos da Constituição, há um coro quase unânime para que os cidadãos sintam que a lei fundamental está a ser cumprida. Exigir responsabilidades não significa colocar em causa as competências das instituições; pelo contrário, é uma forma de as valorizar e reforçar. A responsabilização é um mecanismo básico da democracia, essencial para garantir transparência, confiança e qualidade na ação pública. Instituições escrutinadas são instituições mais fortes, mais credíveis e mais capazes de cumprir o seu papel ao serviço dos cidadãos.

O momento atual pode ser particularmente propício a esta abordagem. Mais do que grandes reformas retóricas ou uma política espetáculo, o país precisa de consistência, abertura e capacidade de mobilização.


© Jornal de Notícias