A importância de falar Abril
Naquele serão de Abril, escutou-se o contrabaixo de Emmanuel Fleitz, talvez um dos poemas mais bonitos que ouvi nessa noite, numa antiga abadia tornada centro cultural na cidade do Luxemburgo. Emmanuel caminhava e, por vezes, dançava com o seu contrabaixo, era já o companheirismo de Abril. Era também a abertura do Printemps des Poètes (a Primavera dos Poetas) no Luxemburgo, que também contou com a presença do poeta José Carlos Barros (somos todos feitos dessa «dist ânsia» e desses Taludes Instáveis), que nasceu em Boticas e mora no outro extremo de Portugal continental, no Algarve. Pareceu-me também que, nessa noite poética, uma amiga que vi na plateia tinha começado a usar o seu pai no pulso depois da peregrinação deste, e, por vezes, dava-lhe corda, passando os dedos no vidro como se lendo mensagens em braille que o pai lhe ia deixando. Foi bonito ver, por exemplo, o poeta checo Petr Hruška e a poetisa espanhola Carla Friebe, abandonando o seu lugar de declamador/a e ouvindo atentamente a tradução da declamação, descobrindo algo novo, uma e outra vez, naquela voz e naquela língua que não a sua, tendo a última rematado com «la más profunda verdad es la alegría [de Abril, diria eu]».
Chegámos à Madeira num domingo de Abril (mesmo utilizando o mais recente acordo ortográfico — o Ondjaki, com a sua sabedoria africana, convenceu-me —, não consigo escrever Abril com letra minúscula): nem tudo se pode, nem deve, sacrificar no altar da gramática. Era o domingo do Espírito Santo no sítio do Valeparaíso,........
