A audiência
Há uma fé antiga no ofício de argumentar: a de que a razão, bem exposta, acaba por impor-se — que o argumento mais sólido vence o mais fraco pelos seus próprios méritos. É uma fé reconfortante. É também, cada vez mais, uma ilusão. E a ilusão não é inofensiva: distrai-nos de uma fragilidade mais profunda, que não é da qualidade dos argumentos, mas da sociedade que deveria ouvi-los.
Houve um tempo em que a praça pública era estreita e comum: o que se dizia era ouvido, com pequenas diferenças, por quase todos. Esse terreno desapareceu. No seu lugar há mil salas, cada uma a ouvir a sua própria conversa. A abundância, que prometia mais vozes, deu antes mais paredes. Já não se é contrariado — é-se, simplesmente, não alcançado. E o que passou a vencer não foi o melhor conteúdo, mas a forma mais ruidosa: ganha quem inflama depressa, não quem pondera devagar, e a emoção mais barata de produzir é a que divide.
É aqui que o ruído deixa de ser........
