A vida numa história de embalar
A casa dos avós do Rapaz era pequena, pequenina, como se fosse o centro do mundo, ou seja, aquele lugar minúsculo onde começa o tempo, a distância, a forma e o peso de todas as coisas. Só tinha três quartos e eles – o avô e a avó – dormiam no quarto que estava virado para onde o sol se põe. Tinham ambos mais de setenta anos, talvez mais de oitenta, ou mais ainda, e andavam sempre a resmungar um com o outro, porque eram pessoas com feitios muito diferentes, como carne e peixe, água e fogo, cão e gato.
– Vem para aqui! – Dizia o avô.
– Vai para ali! – Retorquia a avó.
O avô acordava todos os dias bem-disposto e punha-se logo a cantarolar – lá-lá-lá, nã-nã-nã – sentado na beira da cama e depois fazia o mesmo enquanto se vestia e calçava os sapatos e desfazia a barba, sempre a trautear – nã-nã-nã, lá-lá-lá – como se estivesse a dizer bom dia ao dia.
A avó, pelo contrário, começava a rezingar........
