Brasil: Da antropofagia ritual ao canibalismo político
Aterrei, uma vez mais, no Aeroporto Internacional Tom Jobim (Galeão), pouco passava das cinco da tarde. Mal entrei no Uber, quis saber das primeiras sondagens. Na rádio, passava uma mistura do funk carioca e do trap, pela voz de MC Poze do Rodo, com um dos seus últimos sucessos que transitou para a primavera brasileira: "Me Sinto Abençoado". Portanto, nada de novo, pensei cá para mim. E tem sido sempre assim. A busca pela identidade brasileira sempre se estruturou a partir da relação dialética entre o ‘Eu’ e o ‘Outro’, uma dinâmica de aproximações e estranhamentos que remonta aos relatos quinhentistas. Se no século XVI os testemunhos jesuítas e de viajantes como Hans Staden fixaram o horror à antropofagia sagrada dos Tupinambá, o século XIX e, mais tarde, o Modernismo de 1928 operaram uma inversão filosófica brilhante: o canibalismo deixou de ser o estigma da barbárie para se tornar o motor da digestão cultural e da autonomia pátria. Oswald e Mário de Andrade ensinaram que devorar o invasor europeu era........
