Leia com moderação: Feitas para Durar (Collins e Porras)
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Seguimos com a série “Leia com Moderação”. Desta vez, o alvo é “Feitas para Durar” (Built to Last), de Jim Collins e Jerry Porras, um dos livros de gestão mais influentes das últimas décadas. Ele apresenta histórias empresariais fascinantes e introduz conceitos que se tornaram parte do vocabulário corporativo. A distinção entre ideologia central e práticas operacionais é genuinamente útil. O conceito de BHAG (Big Hairy Audacious Goal), aquelas metas audaciosas e arriscadas que mobilizam organizações inteiras, é usado até hoje em reuniões estratégicas mundo afora. Mas, como no caso de “Competindo pelo Futuro”, a questão central não é se o livro oferece boas ideias. É se as relações causais que ele propõe realmente se sustentam sob escrutínio rigoroso.
Collins e Porras começaram identificando empresas excepcionais, aquelas que chamaram de “visionárias”. O critério principal era longevidade combinada com desempenho superior sustentado. Depois, compararam cada uma dessas empresas com um concorrente direto que não havia alcançado o mesmo patamar. A partir daí, identificaram diferenças sistemáticas entre os dois grupos e apresentaram essas diferenças como as causas do sucesso das visionárias.
O problema está no caminho usado para chegar à conclusão. O estudo começa escolhendo empresas que já deram certo e, só depois, procura traços comuns nelas. Não há grupo de controle adequado. Não há verificação independente de que as práticas identificadas precederam o sucesso. E não há análise das empresas que adotaram práticas idênticas e falharam.
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Parte substancial dos dados veio de fontes retrospectivas: artigos publicados, entrevistas com executivos, estudos de caso. Essas fontes não são neutras. Quando uma empresa prospera por décadas, jornalistas e analistas a descrevem de forma positiva. Sua cultura é “forte”, sua liderança é “visionária”, suas metas são “audaciosas”. Quando enfrenta dificuldades, os mesmos observadores invertem os adjetivos. A cultura forte vira “rígida”. A visão vira “teimosia”.
O que muda não é necessariamente a empresa. O que muda é como as pessoas a descrevem........
