Quando o trabalho exige fantasia, a liderança falhou
Uma mulher do interior do Rio Grande do Sul passou horas no aeroporto de Erechim esperando Brad Pitt. Ela dizia estar noiva do ator após mensagens e “videochamadas”. O episódio aconteceu no fim de 2025, mas ganhou repercussão em janeiro de 2026 como meme e até fantasia de carnaval.
Se a nossa primeira reação é a risada e o humor, talvez a segunda precise ser a lucidez. A psicanálise nos lembra que fantasias não nascem apenas da ingenuidade: muitas vezes, são um mecanismo de sustentação quando a realidade fica dura demais, incoerente demais ou solitária demais. A fantasia não é, necessariamente, uma mentira; pode ser um abrigo.
Como líder, leio essa história e penso menos no “absurdo” e mais no que ela revela: pessoas constroem narrativas para atravessar dias difíceis. E essa dinâmica não fica do lado de fora do escritório. Pelo contrário, é comum estarmos em posição de liderança e perceber como essas narrativas estão presentes na vida dos colaboradores: nas reuniões, nos prazos, nas metas e no modo como interpretamos sinais de desgaste. É aqui que a notícia vira espelho do corporativo.
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Nem toda fantasia é sinal de infelicidade no trabalho. Pessoas não “fantasiam” apenas porque estão desengajadas ou frustradas profissionalmente. Fantasiam porque existe uma vida fora das oito horas. Há luto, dívidas, jornadas de cuidado, solidão, saúde mental oscilando, medo do futuro. Ninguém entra numa reunião com a cabeça “zerada”. O mundo vai junto.
No ambiente corporativo, esse mecanismo aparece de forma mais socialmente aceita e, por isso mesmo, mais perigosa quando se torna regra. “É só uma fase.” “Quando eu for promovido, melhora.” “Aqui é puxado, mas é aprendizado.” Essas frases podem expressar ambição saudável, mas viram anestesia quando passam a justificar cansaço crônico, desalinhamento de valores e ausência de reconhecimento real. Quando a pessoa precisa romantizar o excesso para continuar em pé.
É nesse ponto que o papel da liderança precisa ser revisitado com profundidade. Liderar não é apenas definir estratégia e cobrar execução.
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É criar ambientes coerentes, em que as pessoas não precisem inventar histórias para permanecer. Onde discurso e prática caminham juntos. Onde existe segurança psicológica para falar, discordar e errar. Onde crescimento não é promessa abstrata, mas experiência concreta.
Também é preciso reconhecer que vivemos um tempo em que a tecnologia torna o “parecer real” cada vez mais convincente, dentro e fora das empresas. Golpes usam recursos avançados para simular proximidade e autenticidade. No trabalho, o equivalente é a cultura performática: apresentações impecáveis, slogans inspiradores, comunicação bonita — e um cotidiano que cobra um preço silencioso de quem já está sobrecarregado.
A pergunta madura, então, não é “como essa pessoa pôde acreditar nisso?”, mas “o que estava faltando para que essa história virasse necessária?”. E, no corporativo, a pergunta irmã é inevitável: que tipo de narrativa as pessoas precisam contar para continuar entregando aqui?
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Empatia não é passar pano, nem confundir empresa com terapia. Empatia é competência de liderança e gestão de risco. É reduzir a distância entre gente e realidade: metas viáveis, critérios claros, conversas difíceis sem humilhação, respeito a limites, líderes que enxergam contexto sem invadir.
No fim, a melhor liderança não é a que produz discursos mais bonitos. É a que constrói condições para que ninguém precise se agarrar a fantasias para continuar existindo. E isso exige um compromisso radical com empatia: não a empatia de “achar fofo”, mas a empatia de agir, ajustar e sustentar coerência — mesmo quando dá trabalho.
