Assessores X consultores: o que os dados revelam sobre um falso dilema
Nos últimos meses, intensificou-se o debate sobre a migração de profissionais da assessoria de investimentos para a consultoria de valores mobiliários. O tema ganhou espaço nas redes sociais e passou a ser tratado, muitas vezes, como uma disputa entre modelos de remuneração, conflitos de interesse e supostas superioridades éticas — uma simplificação que empobrece a discussão sobre um mercado bem mais complexo. Quando as narrativas cedem lugar aos dados oficiais da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), porém, percebe-se que esse movimento ainda é relativamente modesto e que o verdadeiro desafio do mercado brasileiro está longe da polarização entre assessoria e consultoria.
A discussão sobre qual modelo seria “melhor” para o investidor acaba obscurecendo um problema estrutural muito maior: o Brasil ainda forma poucos profissionais de investimentos diante do universo potencial de investidores, convive com elevados índices de rotatividade na profissão e apresenta um dos maiores déficits de educação financeira entre as economias relevantes. Sob essa perspectiva, transformar a migração entre categorias em protagonista do debate significa dedicar energia a um tema secundário, enquanto o desafio central permanece praticamente inalterado.
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O que mostram os registros da CVM
Os dados públicos do Cadastro de Participantes da CVM permitem observar a evolução dos registros de consultores de valores mobiliários e assessores de investimentos, pessoas físicas e jurídicas, entre 2020 e julho de 2026.
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Dois aspectos merecem destaque. O primeiro confirma uma percepção amplamente difundida no mercado: a consultoria de valores mobiliários vem crescendo de forma consistente. Entre 2020 e 2025, os registros de novos consultores pessoas físicas passaram de 115 para 533, um crescimento superior a 360%. O movimento reflete fatores econômicos bastante objetivos — o ambiente de juros reais elevados aumentou a atratividade da renda fixa, reduziu a rentabilidade da distribuição de determinados produtos e tornou mais competitivo, para alguns profissionais e clientes, o modelo de remuneração recorrente (fee based). Trata-se de uma resposta racional às condições econômicas vigentes, e não de uma evidência de superioridade de um modelo sobre o outro.
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O segundo aspecto costuma receber bem menos atenção: mesmo considerando esse crescimento acelerado, a escala da assessoria continua significativamente superior. Entre 2020 e julho de 2026 foram registrados aproximadamente dez novos assessores de investimentos para cada novo consultor pessoa física — 20.273 registros contra 1.994. Em outras palavras, a consultoria cresce, mas a expansão da assessoria segue ocorrendo em dimensão muito maior.
Há ainda um dado que merece reflexão: tanto a assessoria quanto a consultoria apresentam elevada rotatividade. Aproximadamente um terço dos consultores registrados no período já cancelou seu registro junto à CVM; entre os assessores, o percentual se aproxima da metade. A evasão sugere dificuldades relacionadas à formação técnica, ao desenvolvimento de carreira, à sustentabilidade econômica da atividade e à adaptação às exigências regulatórias — um problema estrutural que afeta os dois modelos e revela que o mercado enfrenta um desafio não apenas de atração, mas também de retenção de profissionais.
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Nesse contexto, a migração entre assessoria e consultoria representa, em grande medida, uma redistribuição de profissionais já existentes. Ela altera a composição dos registros regulatórios, mas não amplia a capacidade efetiva do mercado de atender novos investidores — uma conta praticamente de soma zero. E é justamente aí que surge o verdadeiro desafio do mercado brasileiro.
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O déficit que ninguém discute
Segundo a 9ª edição do Raio X do Investidor Brasileiro, elaborada pela ANBIMA em parceria com o Datafolha, 36% dos brasileiros com 16 anos ou mais possuem algum tipo de investimento financeiro — o equivalente a aproximadamente 60,6 milhões de pessoas. Do outro lado da mesa, somando assessores de investimentos, consultores de valores mobiliários, planejadores financeiros certificados (CFP®) e gerentes de bancos e........
