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Quais as prioridades de Kevin Warsh, futuro presidente do Federal Reserve?

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18.02.2026

BERKELEY – Agora que o presidente dos EUA, Donald Trump, escolheu Kevin Warsh como seu indicado para suceder Jerome Powell na presidência do Federal Reserve, é hora de levar as ideias de Warsh a sério, para não dizer literalmente.

Grande parte da discussão sobre Warsh tem focado nas recomendações dele sobre taxas de juro, que têm oscilado com o vento político. Mas isso é fazer tempestade em copo d’água. A política de taxas de juro do Fed é decidida por um comitê, e seu presidente é só uma voz entre muitas.

Leia também: Kevin Warsh pode ter dificuldades em estabelecer novas regras para o Fed

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A voz do presidente do Fed é a mais alta, mas isso não é garantia. G. William Miller foi derrotado em votação em 1979, quando se opôs a um aumento na taxa de redesconto do Fed (cobrada quando o Fed empresta diretamente a bancos). (Miller foi derrotado pelo Conselho do Federal Reserve, não pelo Comitê Federal de Mercado Aberto, já que o Conselho toma a decisão final sobre a taxa de desconto.) O conceituado ex-presidente do Fed Paul Volcker foi brevemente derrotado em 1986, quando se opôs a uma redução das taxas de juros.

Nenhuma das duas divisões manchou a reputação do Fed, embora ambos os episódios tenham diminuído a influência do presidente da instituição. Tanto Miller como Volcker deixaram seus cargos pouco tempo depois, o que é um aviso para Warsh. O próximo presidente do Fed terá de construir um consenso para evitar tornar-se outro Miller.

Isso torna as ideias de Warsh sobre a previsão do curso da economia um assunto de grande interesse, porque suas ideias serão o veículo para sua influência sobre outros governadores. Às vezes, Warsh parece defender uma dependência menor de modelos econômicos complicados, funcionários de carreira e dados recebidos, favorecendo uma abordagem mais arbitrária baseada no tom dos mercados.

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Essa abordagem de investimento baseada no sentimento é conhecida por funcionar nas mãos de profissionais experientes, como o mentor de Warsh, o investidor bilionário Stanley Druckenmiller, que ganhou destaque no Quantum Fund de George Soros. Mas é improvável que funcione como um guia para prever a evolução de médio prazo da inflação e do emprego.

Noutras ocasiões, Warsh parece defender que se deve confiar menos nos indicadores econômicos retrospectivos e mais nas fontes de dados econômicos em tempo real disponíveis graças à revolução digital. Aqui, ele está no caminho certo. Mas o mesmo se aplica aos funcionários do Fed que, em suas pesquisas, já citam dados de fontes como o Billion Prices Project e o HBS Pricing Lab.

Além de Druckenmiller, o operador financeiro mais parecido com Warsh é J.P. Morgan Senior. Ele esteve intimamente envolvido na gestão das grandes crises bancárias e financeiras que eclodiram periodicamente nos Estados Unidos antes da criação do Fed.

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A abordagem preferida de Morgan era organizar operações de resgate, nas quais os bancos mais fortes forneciam a liquidez necessária para manter os bancos mais fracos à tona e acalmar os mercados financeiros.

Num episódio famoso em 1907, Morgan convocou os diretores dos principais bancos de Nova York e os trancou em sua biblioteca particular até que concordassem em fornecer fundos para resgatar outras instituições financeiras solventes, mas instáveis.

Warsh, por sua vez, teve papel fundamental na negociação da aquisição do Bear Stearns pelo JPMorgan Chase em 2008. No fim das contas, essa triagem seletiva não fez nada para conter uma crise sistêmica. Para isso, foram necessárias injeções de liquidez em grande escala pelo banco central – exatamente o tipo de injeção de crédito sobre o qual Warsh expressou reservas.

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Em 1907, os participantes dos mercados financeiros também se preocupavam em confiar na abordagem do setor privado de J.P. Morgan para resolver crises financeiras. Essas preocupações levaram diretamente à criação do Federal Reserve em 1913 (Morgan morreu no mesmo ano).

Nesse sentido, Warsh argumenta que o Fed deve concentrar-se em seu mandato duplo de garantir a estabilidade dos preços e o máximo emprego, evitando ao mesmo tempo o alargamento da sua missão. Isto parece se aproximar perigosamente de renunciar à responsabilidade do Fed pela supervisão bancária e pela estabilidade financeira, o que poderia incentivar um afrouxamento adicional das rédeas regulatórias do Fed.

A visão de Warsh indica preocupação com o risco moral, a preocupação de que a injeção de liquidez do Fed incentive comportamentos de risco por parte dos bancos, inflacione os preços dos ativos e promova o esbanjamento por parte de um governo federal já propenso ao déficit. Contudo, embora o risco moral seja uma preocupação válida, o risco de colapso também o é. A chave para o sucesso do banco central não é privilegiar um em detrimento do outro.

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O argumento mais forte para que o Fed foque em seu mandato principal – entendido como preços estáveis, pleno emprego e também estabilidade financeira – é que a preservação da independência da autoridade monetária depende disso. A independência só é politicamente viável quando acompanhada de responsabilidade – somente quando indivíduos e a agência aos quais funções públicas são delegadas são obrigados a explicar e justificar suas ações.

Quanto mais complexo for o mandato, mais difícil será para os responsáveis políticos da agência – o Congresso e o público – avaliar a correspondência entre essas decisões, de um lado, e os objetivos do mandato, de outro. E mais difícil será, então, para os decisores políticos independentes defenderem suas ações de forma confiável.

A ironia é que Warsh, nomeado por um presidente que valoriza lealdade acima de tudo, pode ser lembrado como um importante defensor da independência do banco central.

Tradução por Fabrício Calado Moreira

Barry Eichengreen, professor de economia e ciência política na Universidade da Califórnia, Berkeley, é o autor, mais recentemente, do livro Money Beyond Borders: Global Currencies From Croesus to Crypto (“Dinheiro sem fronteiras: Câmbios globais, do croesus à cripto”, em tradução livre do inglês) (Princeton University Press, março de 2026),a ser publicado em breve.

Direitos de autor: Project Syndicate, 2026.www.project-syndicate.org


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