Violência doméstica: o réu é o agressor, não a igreja!
Todo segundo domingo de maio o Brasil se cobre de flores, almoços em família, homenagens escolares, fotografias nas redes sociais e frases bonitas sobre o amor materno. Com certeza nossas amadas mães devem ser honradas e celebradas. Devem ser lembradas não apenas pela beleza poética da maternidade, mas pelo peso concreto de uma vocação que, tantas vezes, sustenta silenciosamente a casa, a família, a fé e a esperança.
Mas há uma delicadeza perigosa quando o Dia das Mães se transforma apenas em estética. Há mães que receberão flores depois de uma semana de medo e que serão abraçadas em público e humilhadas em privado. Há mães que ouvirão sermões sobre família, mas voltarão para casas nas quais a palavra “família” já foi sequestrada por alguém que confunde autoridade com domínio, liderança com brutalidade e casamento com posse.
É por isso que a fala da pastora Helena Raquel, que viralizou nesta semana ao tratar com firmeza da violência contra mulheres, não deve ser lida apenas como mais um episódio de redes sociais. Vídeos viralizam todos os dias e, muitas vezes, evaporam com a mesma velocidade com que surgem; entretanto, algumas falas ganham força porque tocam em um nervo moral que já estava exposto. Segundo a CNN, o vídeo com a pregação de Helena Raquel ultrapassou milhões de visualizações; a Veja também registrou a repercussão transversal de sua fala, com apoios vindos de campos políticos distintos. Isso revela algo importante: quando a igreja fala com clareza contra a violência, muita gente reconhece, quase instintivamente, que há ali uma verdade que não pode ser abafada.
A frase que precisa permanecer, ainda que com outras palavras, é simples: a igreja não pode ser abrigo moral para agressor. A igreja é refúgio para o ferido, como tem sido desde a sua fundação por Jesus Cristo, nunca esconderijo para o agressor. Não há dúvidas de que o pecado deve ser tratado como tal e de acordo com a liturgia, disciplina e sacramentos internos da igreja. A autonomia litúrgica, religiosa e organizacional da igreja deve sempre ser respeitada e não sofrer interferências estatais. Por outro lado, os crimes, como ensinava Lutero, pertencem à ordem temporal e devem ser tratados pela espada do Estado. Não importa onde aconteçam. Crime é competência estatal, reino temporal, e por ele deve ser tratado.
Os crimes, como ensinava Lutero, pertencem à ordem temporal e devem ser tratados pela espada do Estado. Não importa onde aconteçam
Os crimes, como ensinava Lutero, pertencem à ordem temporal e devem ser tratados pela espada do Estado. Não importa onde aconteçam
Infelizmente, às vezes, o criminoso pode ocupar a posição de liderança religiosa. Quando o marido agressor é também pastor, presidente, bispo, apóstolo, dirigente, fundador, mantenedor ou “homem de Deus”, a vítima enfrenta uma camada adicional de medo. Ela não teme apenas a reação do agressor; teme a reação da comunidade e da ordem religiosa. Ela teme ser chamada de rebelde e até mesmo acusada de escandalizar a importante obra desenvolvida pela instituição religiosa.
A vítima teme ser vista como aquela que destruiu a família, quando, na verdade, está tentando impedir que a violência destrua sua vida e a vida de seus filhos. Muitas vezes ela possui um conflito interno em que a reputação pública do líder vale mais do que sua integridade privada.
Essa inversão é diabólica no sentido mais teológico da palavra: chama luz de trevas e trevas de luz. A mulher que denuncia não é inimiga da família e muito menos da igreja! O agressor é quem ataca a família por dentro e está muito longe de exercer seu chamado pastoral e de líder religioso, quando é o caso. A mulher que pede socorro não destrói a igreja; ela a fortalece, pois retira do altar o “fogo estranho”. Isso mesmo: quem bate na própria esposa e ainda posa de pastor ou possui qualquer cargo de liderança eclesiástica é como Nadabe e Abiú, levam ao altar fogo profano em total desobediência à santidade que tal cargo religioso requer (Levítico 10,1-2). Esse fogo é rejeitado por Deus e deve ser rejeitado da mesma forma pela ordem religiosa, isto é, pela igreja e pela comunidade. Dito de outra forma, esse líder religioso deve ser denunciado à polícia e ao Ministério Público, processado e, se provada sua culpa, com todo o........
