As virtudes importantes hoje são as mesmas de sempre
Toda época gosta de acreditar que é inédita! Basta acompanhar o debate público para logo identificar, às vezes subentendida, a convicção de que vivemos desafios absolutamente novos, diante dos quais as gerações passadas teriam pouco ou nada a ensinar. E isso é verdade? A velocidade da tecnologia, o advento da inteligência artificial, as transformações culturais – as orgânicas e as forjadas pelos projetos financiados –, a avalanche de informações e a constante redefinição de valores... Tudo isso parece reforçar aquela impressão.
Há, sem dúvida, elementos realmente novos em cada período histórico. Mudam as circunstâncias, os costumes, as prioridades e até mesmo a linguagem com que descrevemos nossos problemas. No entanto, há um grande risco nessa percepção, o risco de assumirmos, não uma ideia, mas uma crença, que se infiltra na nossa mentalidade como a água numa casa velha... Qual? O de imaginar que a natureza humana também muda na mesma velocidade. E ela não muda.
Ora, as grandes questões, as fundamentais, continuam surpreendentemente semelhantes. O homem ainda precisa aprender a distinguir o verdadeiro do falso, o essencial do acessório, o bem do mal. Continua enfrentando o orgulho, a vaidade, o medo, a injustiça, a ambição desmedida e a tentação de seguir a multidão, apenas porque ela parece estar do lado vencedor. Talvez por isso uma das formas mais discretas de arrogância seja, justamente, acreditar que nossa geração está dispensada da experiência acumulada ao longo dos séculos. Quando se supõe que tudo o que veio antes ficou automaticamente ultrapassado, perde-se exatamente aquilo que o tempo oferece de mais precioso: a capacidade de separar aquilo que é permanente, do que é passageiro.
As grandes questões, as fundamentais, continuam surpreendentemente semelhantes. O homem ainda precisa aprender a distinguir o verdadeiro do falso, o essencial do acessório, o bem do mal
As grandes questões, as fundamentais, continuam surpreendentemente semelhantes. O homem ainda precisa aprender a distinguir o verdadeiro do falso, o essencial do acessório, o bem do mal
Existe ainda outra confusão difundida – ainda menos fácil de identificar, ou, melhor dizendo, de assumir. A gente, mesmo quando vive por ela, prefere negar. Podemos até ser mentalmente conservadores, mas, sem cuidado, com o passar do tempo e a força da opinião alheia... bem, costuma-se identificar o que é amplamente aceito com aquilo que é verdadeiro. Como se uma ideia, apenas por dominar o ambiente cultural de determinada época, adquirisse automaticamente legitimidade. Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Mas a popularidade jamais foi critério suficiente de verdade. A história está repleta de consensos que hoje sabemos serem equívocos evidentes.
Cada época possui seus pontos cegos. Do ponto de visto da conduta humana e da personalidade, certas virtudes recebem enorme destaque; outras quase desaparecem do horizonte. Algumas qualidades passam a ser celebradas enquanto outras são consideradas antiquadas. O problema começa quando se conclui que aquilo que está em evidência representa toda a vida moral. É comum, por exemplo, transformar determinadas qualidades em substitutos da própria virtude. A eficiência, a produtividade, a coragem, a autonomia, a autenticidade ou o sucesso profissional podem ser bens importantes. Mas nenhuma delas, isoladamente, basta para formar um bom caráter.
O mesmo ocorre quando........
