Debate racial fora da bolha brasileira: “é complexo!”
“E todos os meus instintos me dizem que tanto como escritora quanto como pessoa qualquer rendição total a outra cultura me destruiria. E o perigo não vem sempre da indiferença; vem também da aceitação. Chama-se por vezes de medo da assimilação, o horror de ser tragado por outra cultura.” (Toni Morrison)
Recentemente, assistindo a uma entrevista com a psicóloga e artista interdisciplinar Grada Kilomba, no podcast Mano a Mano, apresentado por Mano Brown – já mencionado muitas vezes nessa coluna –, deparei-me com uma situação semelhante à descrita por mim em relação à escritora Chimamanda Adichie no artigo da semana passada, bem como a postura do personagem Thelonious Ellison – interpretado por Jeffrey Whight –, do filme Ficção Americana, sobre o qual também escrevi nesta Gazeta do Povo.
Conheço pouco da artista – por isso, inclusive, meu interesse em ouvir o podcast. O que sabia dela havia me chegado do pior modo, via feministas negras, um segmento ainda mais ideológico e radical do feminismo, ocupado por pessoas de capacidade intelectual bastante discutível, para dizer o mínimo. E digo isso não para rebaixá-las, mas para evidenciar que a profundidade e consolidação de um segmento teórico depende de tempo para se estabelecer, e não é difícil encontrar fragilidades elementares nas teorias do feminismo negro – como “lugar de fala”, por exemplo.
Grada Kilomba é uma artista, escritora e pensadora interdisciplinar portuguesa que articula literatura, psicanálise e artes visuais para investigar como o colonialismo e o racismo moldam a subjetividade, a memória e a produção de conhecimento. Formada em Psicologia e radicada em Berlim, sua obra – que inclui o livro Plantation Memories: Episodes of Everyday Racism e diversas performances e instalações – não se limita a tematizar o racismo, mas busca transformar a própria forma de produzir e transmitir saber, por meio do que ela chama de “encenar o conhecimento”.
O modo como Grada Kilomba se posiciona e o trabalho que faz são dignos de nota, porque ela fala de fora da bolha
O modo como Grada Kilomba se posiciona e o trabalho que faz são dignos de nota, porque ela fala de fora da bolha
Muito bem. Não é algo pelo qual eu me interesse muito; afinal de contas, toda essa conversa de decolonialismo me soa um tanto anacrônica, ao querer reinterpretar a dinâmica de domínio de um mundo completamente diferente do nosso com um moralismo ideológico que não se sustenta ao exame da história. Entretanto, o modo como Kilomba se posiciona e o trabalho que faz são dignos de nota, porque ela fala de fora da bolha. Primeiro, porque é portuguesa e não abre mão disso. Ela não se coloca nessa........
